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As Residências Terapêuticas são descritas na Portaria 106/2000 como “moradias destinadas a cuidar dos portadores de transtornos mentais, egressos de internações psiquiátricas de longa permanência, que não possuam suporte social e laços familiares e, que viabilizem sua inserção social”, sendo assim, equipamentos potentes para a reapropriação da identidade, resgate da autonomia e reconstrução dos vínculos afetivos destes sujeitos, e imprescindíveis no processo de desinstitucionalização, que não deve ser compreendida apenas pela desospitalização. M.P.R, homem, 53 anos, autodeclarado amarelo e católico, natural do Rio de Janeiro. Permaneceu institucionalizado por pelo menos 10 anos e está na residência terapêutica há 12 anos. Mantém contato com alguns familiares, em especial, a sua mãe, a qual também apresenta importante sofrimento psíquico e atualmente encontra-se em uma Instituição de Longa Permanência para Idosos – ILPI. M.P.R é vaidoso, e entre outras coisas, gosta de fazer churrasco, de soltar pipa e dançar funk, lembrando-se sempre de suas vivências em sua cidade natal. Traz relatos duros sobre as violências sofridas, sobre momentos perdidos, em uma perspectiva de nostalgia e desejo de que algumas coisas pudessem ter sido diferentes em sua história, em uma verdadeira e dolorida ambiguidade entre o passado e o presente. Entre seus sonhos mais recentes, referiu a possibilidade de retomar os estudos, tema deste relato.
Objetivou-se fundamentalmente considerar o desejo do morador em retomar os estudos, após ter realizado até o 1º do ensino fundamental, inserindo-o em outras propostas de reabilitação psicossocial, em uma perspectiva que não considera apenas habilidades e desabilidades, mas possibilidades e sentido de vida.
No início de 2024, articulou-se uma visita no Centro Público de Formação Profissional – CPFP Valdemar Mattei. Após a explanação do projeto de Educação de Jovens e Adultos – EJA e atividades desenvolvidas, realizado pela profissional responsável pela educação inclusiva na unidade, bem como a oportuna visita às instalações, M.P.R sentiu-se acolhido e motivado, seguindo para a matrícula. Por sua vez, os profissionais da residência terapêutica, organizaram-se de maneira a ajudar o morador em sua nova rotina de horários, deveres de casa, reuniões e acolhimento de suas angústias, bem como incentivando-o diariamente na continuidade de seu objetivo. No segundo semestre/2024 foi necessária a articulação de transporte, devido M.P.R constatar trombose venosa profunda e necessitar de cuidados mais específicos, o que também foi feito com sucesso por sua referência da residência. Atualmente está finalizando a etapa do EJA I Alfa, o qual é direcionado a adultos com baixa escolaridade e corresponde ao período de alfabetização (1º ao 2º do ensino fundamental), preparando-o para as próximas etapas.
Compreende-se que os resultados se relacionam sobretudo com a satisfação de M.P.R em ter tido seu objetivo considerado, refletindo em seu comprometimento diário com as atividades escolares, esforçando-se e avançando, dentro de suas possibilidades, no processo de alfabetização. O morador orgulha-se e emociona-se com cada etapa vivenciada, e com felicidade mostra seu caderno a todos que chegam na residência terapêutica, com expressiva gratidão e reconhecimento pelo trabalho e afeto que compõe a prática diária deste trabalho.
A inclusão escolar promove a diversidade no ambiente educacional. É um movimento que visa garantir que todos os alunos tenham acesso a educação. Além disso, a inclusão contribui para promover a empatia diante da diversidade, sendo um grande passo para uma sociedade mais acolhedora. Compor a rede de saúde mental, e especialmente no âmbito das Residências Terapêuticas significa refletir diariamente sobre o impacto que cada pequena ação gera na vida daqueles que por muito tempo ficaram institucionalizados, privados de direitos, sonhos e possibilidades. Assim, reconhece-se sobre a importância de espaços de diálogo, educação continuada, e articulações em rede, comunidade e território, que constantemente contribuem para o desenvolvimento de novos olhares e práticas.
inclusão escolar, residência terapêutica.
ARIANA APARECIDA DA SILVA, THIAGO SUZANO OLIVEIRA