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Nosso mundo é finito, pode ser considerado uma prisão, mesmo no lixo e no luxo; claro que quem vive em condições precárias estará numa prisão pior do que quem vive no palácio de ouro com grades de ouro. Tal perspectiva é clara quando consideramos os determinantes sociais de saúde da grande maioria dos usuários de álcool e outras drogas que buscam ajuda no SUS. Assim sendo, é essencial buscar trabalhar com tecnologias que ajudem de fato a população a se emancipar, a buscar caminhos e sonhos possíveis, viver de verdade, tornar-se consciente, inclusive consciência da sua grande infelicidade, da sua não liberdade, da impossibilidade de se conectar com sua Terra. A supervisão institucional é um espaço de fomento, planejamento e alimento dessas possibilidades. O Centro de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas (CAPS AD) foi inaugurado no município de Atibaia em fevereiro de 2023. Em maio, aconteceu a Semana da Luta Antimanicomial, na qual uma das programações realizadas foi uma mesa para discutir a Redução de Danos. Na ocasião, o Defensor Público, Mestre em Direito Sanitário, Especialista em Saúde Mental e ator e autor da Desinstitucionalização em São Bernardo do Campo, Marcelo Dayrell Vivas participou e realizou-se então um convite para que ele fizesse a supervisão institucional do CAPS AD, o qual ele aceitou. As supervisões passaram então a acontecer em junho 2023 junto à equipe do CAPS AD e seguem até o momento.
O espaço de supervisão institucional foi estabelecido para qualificar a equipe e o cuidado oferecido por meio da organização do serviço e das ações realizadas, considerando a abertura recente do CAPS AD e o perfil dos profissionais (maioria sem experiência prévia em trabalho de rede ou em SM). Ao decorrer dos encontros, trouxe como objetivos e necessidades a serem olhadas: Fomentação pela busca do aprimoramento. Reflexão e crítica sobre o fazer dentro do serviço, buscando evitar a cristalização de práticas manicomiais.Fortalecimento de ações intersetoriais e da RAPS. Consolidação das práticas de cuidado nos moldes da reforma psiquiátrica, questionando fluxos e práticas prévios à chegada do serviço. Romper preconceitos e estigmas (da própria equipe e do município) quanto aos usuários, passando a analisar os determinantes sociais em saúde presentes nos casos discutidos e situações vivenciadas no cotidiano do trabalho. Resolução de conflitos de forma humanizada.
Antes da primeira supervisão foram realizadas duas reuniões para melhor conhecimento da configuração do CAPS AD pelo supervisor. Desse modo, foi possível compreender a configuração da rede de atenção psicossocial em Atibaia, assim como o desenho do CAPS AD, como equipe, fluxos, escalas e atendimentos. A supervisão territorial/clínico/institucional acontece desde junho de 2023, de forma voluntária, quinzenal, no período da manhã, com a participação da gerência, equipe técnica e por vezes, profissionais administrativos. Vem sendo realizada às segundas-feiras, no período matutino. Até o momento foram realizados 15 encontros, nos quais realizou-se conversas de associação livre, momentos de apresentação por categoria profissional, conversas individualizadas com a gerência e com técnicos e discussões de casos clínicos. Também tem sido um espaço para alinhamento técnico e ressignificação dos processos de trabalho junto à equipe, de forma a qualificar e ampliar as possibilidades das ações junto aos usuários e à rede intersetorial do município e região. Para tanto, o supervisor e a própria equipe têm sugerido leituras e referenciais teóricos, realizado rodas de conversa sobre os conflitos nas relações, análises de escalas, fluxos e protocolos, discutido situações do cotidiano profissional que impactam e mobilizam pessoal e profissionalmente e buscado experiências externas para compor o olhar complexo que o cuidado em SM e especificamente AD traz como grande desafio.
Durante os encontros, aconteceu a (re)construção coletiva de processo de trabalho, com criação de espaços e fluxos que fossem significativos para o cuidado dos usuários e que estivessem alinhados às Políticas de SM e de Redução de Danos. A porta aberta do acolhimento passou a ser melhor qualificada, com avaliação de crises e urgências discutidas em passagem de plantão, houve a divisão em mini equipes, no Projeto Terapêutico Singular as histórias, movimentos e itinerários dos usuários foram mais inseridos no cotidiano, a convivência e grupos tiveram contribuição das problematizações, aumentando a possibilidade do vínculo e trânsito livre do usuário, favorecendo os encontros, trocas e a reabilitação psicossocial. Os estudos de casos têm qualificado as discussões para que as pessoas cuidadas sejam protagonistas do processo e não vistas por saberes técnicos fragmentados (herança ambulatorial dos serviços). Há melhor preparação para o matriciamento da Atenção Primária. O aparecimento dos conflitos pessoais vêm para superfície e isso tem tratado a equipe, pois não é possível cuidar, se a equipe está até mais doente do que os usuários e famílias. A constância do olhar-se, avaliar-se, desconstruir-se e reconstruir-se permite à equipe pensar possibilidades de cuidado; projetos terapêuticos, envolvendo trabalho, moradia e laço social, que podem ser construídos a partir das ações de preservação do meio ambiente e do cruzamento com a reabilitação psicossocial e desinstitucionalização.
O espaço de supervisão institucional tem sido potencializador para reflexão, reordenamento e escolhas práticas para implementação de cuidado em saúde mental, uma vez que é possível a realização de práticas colaborativas que buscam fortalecer o sistema de saúde e dos demais contextos de cuidado. Por meio da auto avaliação do fazer e cotidiano do serviço, a equipe tem buscado ferramentas para lidar de forma qualificada com os desafios que o trabalho em Saúde Mental Álcool e Drogas traz. Para além disso, é possível observar os diversos entraves que perpassam os limites do serviço, mas que impactam diretamente as ações, o que motiva que as ações sejam direcionadas ao trabalho com a rede, em espaços coletivos e de forma significativa. A supervisão, por fim, se faz um espaço de esperança e cuidado para construir um SUS mais forte, articulando níveis de cuidado em Redes de Saúde – APS, AES e de maneira Intersetorial, uma vez que cuidar de maneira integral e longitudinal é tarefa urgente. Tal processo de trabalho – supervisão institucional vem sendo demandado por outros serviços da RAPS e será ampliado seu alcance para capilarização do cuidado em saúde mental comprometido com os Direitos Humanos.
Saúde Mental; Caps AD; Supervisão Institucional
Amy Tanaami, Rafael Forte da Costa, Fernando Augusto Vaquero dos Santos, Deise da Mota Pimenta, Eva Talita Candido, Grazielle Cristina dos Santos Bertolini, Danielle Ferreira de Moraes Cardoso