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Diferentes populações estão expostas a riscos distintos e variados. Estudos apontam para uma diferença de gênero quanto à incidência, a prevalência e o curso de transtornos mentais. São escassos os estudos que se debruçam sobre intervenções voltadas para as mulheres no campo da saúde mental, que considerem de forma contextualizada às questões sociais, e superem as abordagens alicerçadas apenas em sintomas, indicando a necessidade de maior aproximação entre o campo da saúde mental e os estudos de gênero. A Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou a necessidade de rompimento com o paradigma psiquiátrico saúde-doença, tomando a saúde em conexão ao cuidado comunitário. Nessa direção, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são locais de cuidado especializado em saúde mental, que dentre outros objetivos visa fortalecer os laços sociais, a cidadania e a (re)inserção social. Diante desse contexto, ressalta-se os espaços coletivos voltados às mulheres como estratégias importantes de cuidado em serviços de saúde mental. Essas intervenções auxiliam na produção de novos significados para seus sofrimentos, a partir do compartilhamento de situações vividas; promovem a adesão ao tratamento, autonomia e reinserção social, além da construção de vínculos, apoio mútuo, recuperação da autoestima e relações sociais.
Apresentar a oficina de mulheres denominada Colcha de Retalhos e alguns de seus resultados. A respectiva oficina tem como objetivos: identificar os papeis sociais da mulher e trajetórias de barreiras e dificuldades na sociedade; identificar a partir das experiências individuais e coletivas as situações vivenciadas no universo feminino que contribuem ou são geradoras do sofrimento psíquico; promover o autoconhecimento, auto estima e estimular habilidades; resgatar os marcos importantes da vida, ciclo de vida atual e a compreensão sobre o processo de envelhecimento; resgatar as atividades significativas e de interesse que possam ser desenvolvidas e/ou retomadas; desenvolver novos projetos com foco nas habilidades e potencialidades.
A oficina Colcha de Retalhos é realizada no Centro de Atenção Psicossocial II – Amigos da Liberdade (CAPS II), na cidade de São Carlos – SP, por profissional da Terapia Ocupacional. Teve início em maio de 2022 e segue em curso. Participam da oficina mulheres em seguimento do cuidado em saúde mental no CAPS II, cujo Projeto Terapêutico Singular contemple um ou mais objetivos da atividade coletiva. A oficina acontece uma vez por semana com a duração de duas horas. A atividade tem entre 10 a 12 vagas, com rotatividade a depender da indicação e avaliação dos técnicos de referência. Sendo assim, o grupo é composto e segue a variação das participantes ao longo do processo, que é individual e considera a revisão do PTS e a finalização do cuidado no serviço. Em todos os encontros são realizadas atividades expressivas com temáticas específicas que permitem a reflexão individual e coletiva, alicerçado no núcleo de conhecimento da Terapia Ocupacional e na abordagem da saúde mental e a atenção psicossocial, considerando o cuidado integral e humanizado no SUS, centrado no indivíduo e não na doença. As atividades realizadas permitem a identificação, elaboração e aprofundamento da temática proposta, a partir da discussão coletiva. A expressão de sentimentos ocorre pelo fazer, em ato, na execução da atividade. Em todos os encontros as participantes são estimuladas a falar de forma livre sobre suas vivências e como avaliavam sua participação, bem como os efeitos da atividade em suas vidas.
Atualmente a oficina é composta por 11 mulheres, de diferentes faixas etárias, sendo o perfil atual etário: 1 participante com 36 anos, 5 com idades entre 43 e 47 anos e 5 entre 50 e 58 anos. Além do sofrimento psíquico grave, as mulheres apresentam prejuízos na vida cotidiana em decorrência de situações de perdas, rupturas de vínculos, sobrecarga nos papéis sociais, dificuldades na aceitação das mudanças decorrentes do ciclo de vida. Observa-se nos relatos em comum a sobrecarga de trabalho e a invisibilidade social, a falta de autonomia pessoal e financeira, vivências de violências ao longo da vida, relacionamentos disfuncionais, papéis vinculados à maternidade e ao cuidado com pais ou familiares doentes (como algo designado à mulher e sem poder de escolha), a negligência com o cuidado de si e a percepção da falta de olhar cuidadoso da família quanto a necessidade da mulher em sofrimento psíquico. Os resultados positivos da oficina apontam para a promoção da autopercepção, melhora da autoestima e autonomia e construção de estratégias de enfrentamento das situações de vida. As participantes relatam que os vínculos formados na oficina auxiliam na superação de questões vivenciadas individualmente, e servem como apoio e fortalecimento do protagonismo feminino. Além disso, novas habilidades são estimuladas, e a partir da identificação de interesses pessoais ocorre o incentivo e o direcionamento à novos aprendizados, que se estendem para práticas externas ao CAPS.
Estudos indicam um acentuado adoecimento e sofrimento mental em mulheres, e destacam o agravamento, a partir da influência de questões relacionadas a violência de gênero, maternidade, trabalho doméstico, cuidado com familiares e sobrecarga. No cuidado em saúde mental, as atividades coletivas voltadas para as mulheres contribuem para as discussões a respeito da identificação de papéis ocupacionais e dinâmicas cotidianas que colaboram para o sofrimento psíquico e são importantes recursos que permitem o estabelecimento de relações entre indivíduo e aspectos coletivos do sofrimento. Sendo assim, as questões de gênero devem ser consideradas como um dos determinantes da saúde na formulação das políticas públicas, com planejamento de ações que tenham como objetivo promover a melhoria das condições de vida, a igualdade e os direitos de cidadania da mulher, considerando as desigualdades e a vulnerabilidade vivenciada pela mulher em nosso contexto social.
CAPS, oficina terapêutica, mulheres
CAROLINA ELISABETH SQUASSONI, LUCIANA FRANCISCO LUJAN