Siga a gente
Av. Angélica, 2466 - 17º Andar
Consolação - São Paulo / SP
CEP 01228-200
55 11 3083-7225
cosemssp@cosemssp.org.br
O fenômeno da situação de rua apresenta diversas facetas, e quando se trata de mulheres nessa condição, a complexidade é ainda maior. Quando uma mulher em situação de rua enfrenta desorganização psíquica significativa, as preocupações aumentam, exigindo estratégias e intervenções assertivas para diminuir os riscos de violência (psicológica, física, sexual e patrimonial) e garantir seus direitos. Portanto, é essencial tecer a rede. Este documento relata o histórico de E.M.S., mulher de 44 anos com transtorno mental e sintomas psicóticos progressivos, que alteram seu comportamento quando não medicada. E.M.S. foi atendida pela Equipe de Consultório na Rua Vila Nova York em dezembro de 2023, inicialmente organizada e acessível, participando até de grupo de relaxamento no CTA Aricanduva. No entanto, em janeiro de 2024, foi encontrada psicoticamente comprometida, com comportamentos agressivos e resistente à intervenção. Após resgatar seus dados, a Equipe descobriu seu histórico de tratamento no CAPS Mandaqui (2014-2022). Identificamos episódios de desorganização psíquica desde 2014, e, após trabalhar como doméstica em condições análogas à escravidão, seu quadro piorou com a morte da matriarca da família onde trabalhava e o uso irregular da medicação, o que levou à necessidade de internação involuntária. A Equipe CnR se manteve empenhada junto a Rede para propiciar cuidado integral e atendimento humanizado, com significativa evolução da paciente.
O objetivo da equipe foi o de garantir os direitos, proporcionar e estimular saúde e bem estar à paciente que encontrava-se altamente vulnerável, E.M.S. demonstrava baixo juízo crítico da realidade, de sua condição de saúde e pouca chance de procurar e/ou aceitar ajuda espontaneamente. Desta forma, precisamos articular a rede, incluindo vários serviços, para pensarmos no melhor caminho na perspectiva de intervenção involuntária ou compulsória na intenção de evitar progressão com a piora do quadro, expondo a paciente e terceiros a riscos e violências diversas. Foi necessário a realização de inúmeras reuniões de rede, construção de PTS, sensibilização de munícipes que ficavam no entorno e que não entendiam a realidade exposta, visitas compartilhadas entre os Serviços e principalmente a disponibilidade de profissionais que atuaram o tempo todo com olhar humano e sensível frente as necessidades da paciente
Nos aproximamos da paciente em dias alternados e por diferentes membros da equipe, levando doações de roupas, alimentos e água e também por meio de um morador com quem ela tinha um vínculo maior . Notamos que ela aceitava melhor a abordagem de figuras masculinas. Conversamos com moradores e trabalhadores próximos ao local onde ela costumava ficar, realizando observações para entender a dinâmica e identificar suas preferências. Contudo, diante de negativas e ameaças, e constatando sua precária condição de saúde, a equipe de CNR NY levou o caso para discussão com a RAPS da região e o CAPS Adulto foi acionado e assim como a equipe de Abordagem a pessoas em situação de rua (SEAS) e CPAS tentaram se aproximar, mas foram recebidos com hostilidade. A paciente que chegou a ser exposta em reportagens na internet e televisão, não aceitava as medicações mesmo após os avanços, como breves conversas. Houve piora em seu quadro com consequente internação em um leito psiquiátrico, na sequencia em um CAPS III e após foi acolhida no CAPS da Vila Matilde por quinze dias, quando articulamos uma vaga em um Centro de Acolhida Especial para Mulheres na Vila Califórnia. Mesmo fora de nosso território, passamos a visitá-la semanalmente, entregando medicação fracionada e garantindo um tratamento adequado. Articulamos doações de kits de higiene e roupas, e conseguimos que a paciente fosse transferida para outro Centro de Acolhida onde houvesse uma equipe de Consultório na Rua para acompanhá-la.
A partir de Agosto de 2024 a paciente passou a ser acompanhada pela Equipe de Consultório na Rua Pari I – que nos comunica sempre a progressão, gratidão, carinho e saudade da paciente. O agradecimento é por não termos desistido dela, mesmo nos momentos em que estava agressiva, agitada, sexualizada – ameaçando verbalmente a equipe; por sempre termos a tratado com o carinho, cuidado e respeito que todos nossos pacientes merecem. O que se opõe ao descuido e ao descaso é o cuidado. Cuidar é mais que um ato, é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro Leonardo Boff. Hoje E.M.S está medicada, participando de atividades, socializando-se, com autonomia financeira – com seu beneficio social, desfrutando de sua liberdade de forma saudável e segura, consciente de seus atos, podendo realizar as melhores escolhas de acordo com suas pretensões. Encontra-se em um local seguro, com alimentação, acesso a higiene. Contando com a rede de apoio da saúde e assistência social. Não precisando ser submetida a serviços análogas à escravidão como aconteceu desde sua infância e acentuou-se ao chegar em São Paulo. (O que pode ter favorecido o seu transtorno mental , de acordo com os delírios e alucinações que apresentava).
Trata-se de uma experiência que a Equipe de Consultório na Rua Vila Nova York relata com muito carinho e orgulho, pois conseguimos estabelecer uma relação de confiança, respeitando as necessidades e particularidades da paciente, preservando sua dignidade e facilitando o acesso aos serviços e recursos adequados. Conectamos diferentes serviços em prol de um atendimento mais eficaz e integral. Vários atores e serviços fizeram parte desse processo: Equipe de Consultório na Rua Vila Nova York, Interlocução BomPar, UBS Nova York, Comunidade, CAPS Aricanduva/Formosa, CAPS Mandaqui, CAPS Vila Matilde, Supervisão Técnica de Saúde, SAMU, Polícia Militar, Hospital Iva, Interlocução de Saúde Mental/STS, NPJ, CRAS, SEAS, CPAS, Centros de Acolhimento, INSS, profissionais do CnR Pari I e outros atores que ainda virão. Cada um, com escuta atenta e qualificada em sua área de atuação, possibilitou que E.M.S. tenha acesso amplo aos recursos necessários para garantir sua saúde e bem-estar. Nossa perspectiva é de que esse acompanhamento seja contínuo, garantindo os cuidados, fidelizando a adesão ao tratamento e adaptando as intervenções ao longo do tempo até que esteja totalmente estabilizada.
Humanização, articulação, rede
WALQUIRIA APARECIDA LISBOA, EMERSON JUNIOR SCHUSTER DE QUEIROZ, VIVIANNE DE OLIVEIRA LIMA, CARLA REGINA LOURENÇO FARIA