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A urgência psiquiátrica constitui um dos maiores desafios assistenciais do SUS, marcada por elevada demanda, complexidade clínica e dificuldades na articulação entre os pontos de atenção. Situações como agitação psicomotora, crises ansiosas graves, idéias suicidas, intoxicações exógenas e descompensações de transtornos mentais requerem avaliação rápida e suporte especializado. A telemedicina surge como alternativa estratégica para ampliar acesso, reduzir tempos de resposta e fortalecer o cuidado em unidades pré hospitalares. Com base na Portaria SMS nº 267/2023, que regulamenta a teleassistência no município de São Paulo, iniciou se em 2024 a implantação da teleinterconsulta psiquiátrica na APHF 24h, permitindo apoio síncrono às equipes da urgência. Em 2025, o projeto foi aprimorado com mentoria do Institute for Healthcare Improvement (IHI), incorporando ferramentas de melhoria contínua, análise de indicadores, revisão de processos e integração multiprofissional. O cenário incluiu diálogo ativo com CAPS, psiquiatras da rede e Comissão de Telemedicina, configurando experiência inovadora para qualificação da saúde mental na urgência.
Descrever a experiência de implantação e aprimoramento da telemedicina na urgência psiquiátrica na APHF 24h, destacando: •a ampliação da resolutividade dos atendimentos; •o suporte clínico imediato às equipes via teleinterconsulta; •a integração entre urgência, CAPS e rede hospitalar; •o uso de metodologias de melhoria contínua; •e o impacto na qualificação do cuidado em crises de saúde mental.
Trata se de um relato de experiência estruturado em etapas progressivas entre 2024 e 2025. A primeira fase consistiu na implantação da teleinterconsulta síncrona na APHF 24h para suporte à tomada de decisão clínica. Foram utilizadas plataformas seguras de teleassistência, com registros em prontuário eletrônico. Em 2025, a iniciativa recebeu mentoria do IHI, permitindo aprofundamento na análise de processos, uso de ferramentas de melhoria contínua, identificação de gargalos assistenciais e reorganização da oferta de teleatendimentos. As atividades envolveram: •reuniões técnicas com CAPS dos territórios; •encontros mensais para discussão de casos; •capacitações das equipes; •revisão de protocolos; •análise de indicadores (resolutividade, telealta, encaminhamentos presenciais). A equipe multidisciplinar incluiu médicos da APHF, psiquiatras da rede, coordenações da urgência, profissionais de CAPS e Comissão de Telemedicina.
Os indicadores demonstram evolução expressiva na resolutividade. No início (ago–dez/2024), 60% a 85% dos casos exigiam atendimento presencial. Contudo, na metade de 2025, observou se mudança significativa: 40% a 53% dos atendimentos passaram a ser resolvidos exclusivamente via teleinterconsulta, sem necessidade de encaminhamento presencial. Essa mudança reflete maturidade da equipe, aperfeiçoamento das práticas clínicas e maior integração com serviços de saúde mental. Em psiquiatria, tais índices são considerados altamente positivos, considerando que alguns casos obrigatoriamente demandam avaliação física (ex.: manejo de risco, prescrição de controlados e ajustes de medicação). Além dos resultados quantitativos, observou se: •aumento da confiança das equipes da urgência; •redução de transferências desnecessárias; •maior padronização das condutas; •qualificação do cuidado e fortalecimento do matriciamento; •integração ampliada entre urgência, CAPS e rede hospitalar.
A experiência evidencia que a telemedicina psiquiátrica é ferramenta poderosa para qualificar o cuidado, ampliar acesso e apoiar a tomada de decisão nas unidades pré hospitalares. A implementação progressiva mostrou que parte significativa das crises pode ser resolvida diretamente na APHF, desde que haja suporte especializado síncrono. Houve ganhos assistenciais (padronização, segurança, resolutividade) e organizacionais (redução de encaminhamentos, articulação entre serviços, mitigação de gargalos). A maturidade alcançada pela equipe demonstra que a continuidade da teleinterconsulta, combinada com educação permanente e ferramentas de melhoria, tende a consolidar resultados ainda mais expressivos. A experiência apresenta viabilidade, impacto positivo e grande potencial de expansão para outras unidades, contribuindo para um SUS mais resolutivo, integrado e acessível na saúde mental.
Tele medicina, Psiquiatria, SUS
GISLANE SOARES FAZZOLARI, IARA CRISTINA SILVA, ANDRÉIA PRETURLAN