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A reforma psiquiátrica brasileira, iniciada nos anos 1970, revolucionou o modelo de atenção à saúde mental, substituindo o isolamento e abandono por um cuidado humanizado e integral, focado na desinstitucionalização e reintegração social das pessoas com transtornos mentais. O conceito de cuidado, central nessa transformação, valoriza a subjetividade e a autonomia, reconhecendo o indivíduo como protagonista de sua história. O território é essencial nesse processo, entendido como um espaço dinâmico onde relações sociais e de poder influenciam a construção da saúde mental. A Lei da Reforma Psiquiátrica instituiu os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) como estratégia fundamental para promover a inclusão social e a saúde mental, oferecendo suporte interdisciplinar e articulado com outros serviços. A escuta ativa dos usuários e familiares, além da participação democrática nos processos de cuidado, são pilares para um sistema mais justo e eficiente. Nesse contexto, a atuação dos CAPS no território, por meio de visitas domiciliares e interação com atores locais, é crucial para compreender e intervir nos processos de saúde-doença, fortalecendo a rede de apoio e promovendo a cidadania
Apresentar o trabalho da Equipe Interdisciplinar do CAPS Ad Embu das Artes como coordenador e matriciador do cuidado para pessoas que fazem uso de álcool e outras substâncias no território: através do suporte técnico aos trabalhadores da atenção primária em suas intervenções in loco, quanto articular o intersetor e trabalhar as referências que atendem cotidianamente no espaço CAPS, imprimindo o conceito e ação de responsabilidade sanitária, autonomia e protagonismo do trabalhador e fortalecimento da Atenção Psicossocial como ética de forma longitudinal na RAPS municipal
Através de composição da agenda dos trabalhadores da RAPS é feita uma organização interna das atividades da Equipe Interdisciplinar para que 12,5% da carga horária de cada técnico seja executada no território para qual é referência. Desde 2012, o território de Embu das Artes tem uma divisão de redes locais -Redinhas, como estratégia, o CAPS AD desde 2016 trabalha com uma referência para cada território, sendo essa a segunda referência do usuário dentro do equipamento após o acolhimento realizado. É o profissional que vai fazer a ponte entre o seu cuidado no CAPS e o território onde reside, seja através do melhor entendimento do que acontece no bairro, seja por percorrer com ele os serviços de referência do território que podem apoiá-lo quanto à saúde, assistência, lazer, etc. Considerando as especificidades de cada território, o Técnico Responsável pela Redinha irá se articular para viver esse tempo no território conforme a demanda e a necessidade para melhor articulação: grupos de acolhimento porta aberta, referência, acompanhamento de grupos de familiares, visitas domiciliares com intersetor, atividades de geração de renda, atividades de redução de danos para comunidade escolar, acompanhamento terapêutico, etc.
Os resultados evidenciam que a atuação diária da equipe no território, próxima à comunidade, fortalece a produção de saúde e a prevenção de agravos. Observou-se uma melhora significativa na dinâmica de aproximação entre os atores da rede, consolidando o cuidado como uma construção territorial e promovendo vivências que reforçam as relações locais. A disseminação da estratégia de redução de danos, o acolhimento oportuno de casos graves e a corresponsabilização de usuários e familiares no processo de cuidado foram aspectos destacados. A pactuação do Projeto Terapêutico e a maior adesão ao cuidado integral contribuíram para a autonomia dos usuários e o fortalecimentodos laços familiares e comunitários. Além disso, houve redução na busca por internações como única solução para o uso abusivo de substâncias, priorizando serviços substitutivos e comunitários, conforme a Lei 10.216/01. A rede articulada e acolhedora mostrou-se eficaz na inserção dos sujeitos no SUS, enquanto a autonomia dos trabalhadores na articulação da rede e do território reforçou a efetividade das práticas de cuidado em saúde mental.
As considerações finais destacam que a atuação da Equipe Interdisciplinar do CAPS AD Embu das Artes no território, alinhada aos princípios da reforma psiquiátrica, fortaleceu a construção de um cuidado humanizado, integral e territorializado. A estratégia de dedicar 12,5% da carga horária dos técnicos às atividades no território promoveu a articulação intersetorial, a corresponsabilização dos usuários e familiares, e a disseminação de práticas como a redução de danos e o acolhimento oportuno. A aproximação com a comunidade e a rede de serviços permitiu maior adesão ao cuidado, redução de internações e fortalecimento da autonomia e dos vínculos sociais. A experiência reforça a importância do CAPS como coordenador do cuidado em saúde mental, evidenciando a eficácia de uma abordagem territorializada, democrática e interdisciplinar na promoção da cidadania e na consolidação da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) como um sistema mais justo e inclusivo.
Território e Atenção Psicossocial
ANTONIELLA SANTOS VIEIR, BARBARA BELLA URBAN, SHEILA PITUBA DE OLIVEIRA