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O início precoce da terapia antirretroviral (TARV) constitui estratégia central para o controle da infecção pelo HIV, com impacto direto na redução da carga viral, na interrupção da cadeia de transmissão e na melhoria do prognóstico clínico¹ ³. As diretrizes nacionais recomendam o início do tratamento em até sete dias após o diagnóstico4. Contudo, em muitos municípios, a fragmentação dos fluxos assistenciais e a dependência exclusiva da consulta médica inicial dificultam a efetivação dessa diretriz, produzindo atrasos evitáveis no acesso ao tratamento5. Até julho de 2024, no município de Franco da Rocha, o tempo entre o diagnóstico do HIV e o início da TARV podia chegar a 14 dias, evidenciando fragilidades na organização da linha de cuidado do HIV e na articulação entre os pontos da Rede de Atenção à Saúde (RAS), sobretudo entre Atenção Básica, Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) e Serviço de Atenção Especializada (SAE). Diante desse cenário, o SAE promoveu a reorganização do fluxo assistencial da rede, implantando a estratégia de “Teste e Trate” com ordenamento do cuidado a partir do CTA e ampliação da autonomia do enfermeiro no primeiro atendimento, reduzindo etapas desnecessárias e qualificando a regulação do acesso ao tratamento. A experiência ocorre de forma integrada no CTA e no SAE do município, envolvendo equipes de enfermagem, médica e farmacêutica, e beneficia todas as pessoas diagnosticadas com HIV, independentemente do ponto de entrada na rede.
Garantir o início da terapia antirretroviral em até sete dias após o diagnóstico do HIV no município de Franco da Rocha, por meio da reorganização da linha de cuidado e da regulação do fluxo assistencial entre CTA e SAE, com fortalecimento do papel da enfermagem no acolhimento inicial, visando reduzir o tempo de acesso ao tratamento, qualificar a coordenação do cuidado na RAS e ampliar a vinculação das pessoas vivendo com HIV ao seguimento especializado.
A experiência iniciou-se em julho de 2024, com a reorganização da linha de cuidado do HIV no município de Franco da Rocha, visando ordenar o acesso ao início da terapia antirretroviral (TARV) e padronizar o fluxo assistencial entre os pontos da RAS, especialmente Atenção Básica, Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) e Serviço de Atenção Especializada (SAE). Foi instituído fluxo municipal único, no qual todos os usuários com diagnóstico reagente para HIV, independentemente do local de testagem, são encaminhados ao CTA no primeiro dia útil subsequente. O CTA atua como ordenador do cuidado, garantindo equidade, acesso oportuno e continuidade assistencial. O acolhimento inicial é realizado pelo enfermeiro, com autonomia para escuta qualificada, orientações em saúde, solicitação de exames laboratoriais (carga viral, CD4/CD8 e exames complementares) e organização da coleta na mesma semana. No dia da coleta, é iniciado o esquema antirretroviral padronizado, conforme protocolos nacionais vigentes. A consulta médica é agendada em até 10 dias após o início da TARV. Entre 30 e 40 dias, novos exames são avaliados pelo médico infectologista, responsável pelo seguimento clínico. Todos os usuários seguem o mesmo fluxo, assegurando padronização, coordenação do cuidado e fortalecimento da atenção especializada na RAS.
A implantação da estratégia “Teste e Trate”, associada à reorganização da linha de cuidado do HIV no município, resultou em redução expressiva do tempo dispensado entre o diagnóstico e o início da terapia antirretroviral (TARV), com impacto direto na resolutividade do serviço e na coordenação do cuidado na Rede de Atenção à Saúde. Em 2024, antes da reorganização do fluxo, apenas 7% das pessoas iniciavam a TARV no mesmo dia do diagnóstico, 25% em até sete dias e 68% após esse período. Em 2025, após a consolidação do novo fluxo assistencial, 34% iniciaram o tratamento no mesmo dia, 53% em até sete dias e apenas 13% após sete dias, evidenciando maior aderência às diretrizes nacionais. A padronização do fluxo municipal garantiu equidade no acesso ao tratamento, independentemente do ponto de entrada na rede, além de reduzir etapas intermediárias e barreiras institucionais previamente existentes. O fortalecimento da autonomia do profissional enfermeiro no acolhimento inicial mostrou-se elemento central para a agilidade do processo regulatório, contribuindo para maior vinculação ao cuidado e melhor continuidade do seguimento especializado. Os resultados demonstram que a reorganização dos processos de trabalho, com ordenação do cuidado e integração entre CTA e SAE, qualificou a resposta da RAS às pessoas vivendo com HIV.
A experiência de implantação da estratégia de “Teste e Trate” no SAE de Franco da Rocha evidenciou que a reorganização da linha de cuidado do HIV, com ordenação do acesso e padronização de fluxos na RAS, é fundamental para garantir início oportuno da terapia antirretroviral e qualificar o cuidado às pessoas vivendo com HIV. O protagonismo da enfermagem no acolhimento mostrou-se elemento estruturante do processo regulatório, reduzindo barreiras institucionais, ampliando a resolutividade do serviço e fortalecendo a coordenação do cuidado entre CTA e SAE. A definição de fluxo único assegurou equidade no acesso, independentemente do ponto de entrada na rede, e contribuiu para maior vinculação ao seguimento especializado. Como desafio, destaca-se a limitação dos sistemas de informação, como o SICLOM, que ainda não reconhecem plenamente o papel do enfermeiro no início da TARV, exigindo adequações para melhor alinhamento entre prática assistencial e registros oficiais. A experiência demonstra alto potencial de replicabilidade em outros municípios, especialmente aqueles com redes especializadas de pequeno e médio porte, reafirmando a importância da reorganização dos processos de trabalho como estratégia efetiva de fortalecimento do SUS.
Vigilância epidemiológica; Testagem; Equidade.
ANDREZA ALMEIDA RAMOS, ADRIANA MARIA DE LIMA, CARLOS CESAR DA SILVA SOARES, MARIA OLÍVIA PIMENTEL SAMERSLA