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Disfagia é a dificuldade ou incapacidade de deglutir alimentos, líquidos e/ou saliva de forma segura, eficiente e confortável, podendo acometer indivíduos de todas as idades e ter diferentes níveis de gravidade (CONSELHO FEDERAL DE FONOAUDIOLOGIA, 2024). Essa disfunção está associada a elevados índices de morbidade e mortalidade, principalmente em decorrência de complicações nutricionais, respiratórias, como desidratação, desnutrição e aspiração traqueobrônquica de saliva, secreções ou alimentos (PASSOS; CARDOSO; SCHEREEN, 2017). A desnutrição é uma das principais consequências da disfagia e pode estar relacionada à má absorção, alterações metabólicas, perdas nutricionais ou aumento das demandas decorrentes de lesões agudas ou doenças crônicas (JENSEN et al., 2010; ITOH et al., 2013). Durante os atendimentos realizados pela equipe do Serviço de Atenção Domiciliar de São Mateus, observou-se que parte dos pacientes com disfagia realiza alimentação adaptada e apresentam resistência à aceitação das preparações, principalmente em razão da consistência homogênea dos alimentos. Além disso, a prática de processar diferentes ingredientes conjuntamente resulta em perda de sabor e variedade, impactando negativamente a aceitação da dieta, estado nutricional e dificultando o processo de desmame da sonda nasoenteral, mostrando a necessidade de uma intervenção da equipe a esses casos.
O principal objetivo dessa intervenção consiste em promover o desmame gradual do dispositivo de alimentação enteral, favorecendo a transição segura e eficiente para a via oral. Esse processo deve considerar não apenas os aspectos fisiológicos da deglutição, mas também o paladar, as preferências alimentares do paciente e o significado da alimentação como elemento fundamental no processo de reabilitação da deglutição, contribuindo para a adesão terapêutica e para a melhoria do estado nutricional e da qualidade de vida.
pós a avaliação da fonoaudióloga e da nutricionista, foi elaborado um Plano Terapêutico Singular (PTS), estruturado de forma integrada e multiprofissional, com o objetivo de orientar o acompanhamento de pacientes com perfil do SAD, tais como indivíduos com sequelas de acidente vascular cerebral (AVC) e/ou síndrome demencial, entre outros. O acompanhamento ocorreu por meio de visitas domiciliares, com periodicidade mensal ou conforme a demanda identificada pela equipe ou pela família, contemplando o monitoramento contínuo da evolução clínica, do estado nutricional e das condições de deglutição. Como estratégia de enfrentamento aos pacientes disfágicos com liberação de dieta pastosa batida, foi desenvolvido um livro de receitas com objetivo de sugerir preparações culinárias adaptadas, considerando a consistência mais segura, o sabor, a variedade e os princípios das leis da alimentação, especialmente as leis da qualidade e adequação definidas em 1937 pelo médico argentino Pedro Escudero (LIMA, 2009), respeitando condições fisiológicas, clínicas, culturais e socioeconômicas.
O livro de receitas pastosas batidas para pacientes disfágicos contém informações sobre conceito e classificação da disfagia; principais sinais e sintomas; importância da equipe multiprofissional; os alimentos permitidos e restritos; as técnicas de remolho de leguminosas para redução dos desconfortos gastrointestinais, como flatulências e distensão abdominal. Contém ainda, a composição ideal de um prato saudável com a presença de todos os grupos alimentares. O material contempla um total de 30 páginas com todas as informações e uso de linguagem acessível aos leitores. As receitas disponibilizadas são: sopa creme de legumes, sopa creme de batata com cenoura, creme de espinafre, sopa creme de abóbora, sopa creme de milho, creme de lentilha, creme de banana, vitamina grossa de abacate, mingau de aveia, mingau de batata doce, mousse de abacate e purê de maçã com leite. O conteúdo será disponibilizado em formato digital, acessível por QR code, facilitando o uso pelos cuidadores em dispositivos móveis e promovendo a continuidade do cuidado no ambiente domiciliar. Está em processo de aprovação pela comissão de qualidade da Fundação do ABC, e, posteriormente, será divulgado sempre que o paciente preencher os critérios para o uso do material. O ensaio prático será realizado após essa etapa, com a divulgação do material em visita domiciliar e aplicabilidade das técnicas e receitas pelos cuidadores e pacientes, assim como avaliação das receitas orientadas.
A disfagia requer uma abordagem integrada multiprofissional, principalmente entre fonoaudiologia e nutrição, com estratégias que assegurem uma deglutição efetiva e adequada oferta nutricional, com qualidade e variedade nas refeições realizadas durante o dia. A experiência no SAD evidenciou a importância de instrumentos práticos, que orientem cuidadores no preparo de refeições seguras e saborosas seguindo a consistência orientada, favorecendo o desmame do dispositivo de alimentação e a recuperação do estado nutricional. Nesse contexto, o desenvolvimento de um livro de receitas com preparações de consistência pastosa homogênea/batida, constitui uma proposta inovadora, ao unir orientações técnicas e práticas culinárias para fortalecer o cuidado domiciliar, promover a reabilitação e contribuir para a qualidade de vida dos pacientes acompanhados.
DISFAGIA
JOYCE DE PAULA SILVA, ANDRÉA DE CÁSSIA ESTEVES AMÂNCIO, REGINA RISSI DA TRINDADE, KARINA FERREIRA DA SILVA, MARILANDE MARCOLIN