Siga a gente
Av. Angélica, 2466 - 17º Andar
Consolação - São Paulo / SP
CEP 01228-200
55 11 3083-7225
cosemssp@cosemssp.org.br
A escrita desse trabalho foi coisa provocada pela urgência de apreciar e tornar visíveis as valiosas práticas desenvolvidas nos Caps que atendem pessoas que usam ou usaram drogas de forma suicida e outros que vivenciam experiências de intenso sofrimento, muitas em condições existenciais e sociais dramáticas. Sabemos que a experiência humana perpassa uma infinidade de mudanças decorrentes da interação do sujeito com o mundo. Habilidades e desabilidades se desenvolvem a partir daí, assim como formas de lidar com conflitos até o convívio em sociedade (WINNICOTT, 1963). Pessoas que vivenciam contextos de pobreza, violência e abandono afetivo estão sujeitos a uma infinidade de perdas: da dignidade à liberdade, o direito de existir deixa de ser. À contracorrente dos planos da moral, a ideia que se apresenta é constructo de uma constante revisão de nossas concepções e da prática ditada pelo senso comum (LANCETTI, 2015). O projeto de futebol InterCAPS surgiu feito fissura entre muros que divisam. Na cidade de Francisco Morato, a brecha produzida pela prática do futebol em território moratense por pessoas em situação de vulnerabilidade social passou a ser espaço potencial de produção de saúde e novos elos de ligação entre o sujeito-mundo. Nesse sentido, a atividade física foi explorada enquanto ferramenta dilatadora de áreas de contato social e produtora de subjetividades dentro do campo da saúde mental (AMARANTE, 2000)
O principal objetivo do projeto é inventar outras linhas de fuga na direção de outras possibilidades de subjetivação. É escapar do confinamento calcado na sociedade do controle de corpos. É inventar, pela prática do futebol, linhas de cuidado que inscrevam o sujeito num corpo social benigno, do exílio à cidadania. Outros objetivos que merecem consideração são fortalecer a relação do sujeito com o seu próprio território geográfico e existencial, estratégia que orienta a clínica da reabilitação psicossocial; desenvolver maior percepção do próprio corpo e deste corpo em relação ao outro, e reavaliar de modo crítico o próprio fazer dentro dos serviços de saúde mental por parte dos trabalhadores.
O projeto teve como incubadora o lugar ocupado pelos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) da cidade de Francisco Morato-SP, sendo eles o CAPS-AD, CAPS-2 e CAPS Infantojuvenil, em parceria com outros atores sociais vinculados à Secretaria do Esporte, a partir da oferta de oficinas de futebol junto aos usuários destes serviços, realizadas semanalmente nas quadras do Centro Social Urbano (CSU) localizado na região central da cidade. Desta experiência surgiu a ideia de um torneio que pudesse integrar um pedaço maior do tecido social composto por trabalhadores, usuários e seus familiares. Organizado pelos CAPS e parceiros, o torneio aconteceu no dia 29 de setembro de 2023 no ginásio do CSU da cidade, mediante apoio logístico, alimentação e premiações. Tal data foi ação afirmativa frente à Campanha Setembro Amarelo em favor da vida. Participaram times compostos por usuários dos serviços de saúde mental de outros três municípios vizinhos: Mairiporã, Franco da Rocha e Jundiaí. A mobilização dos usuários se estendeu às famílias e à comunidade que se uniram nas arquibancadas em torcida. Tal mobilização também foi sustentação à motivação do grupo ao longo do processo, garantindo a participação dos usuários nos treinos e em outras práticas de cuidado fora dos campos.
O trabalho intersetorial se destacou pela expressiva participação dos usuários, familiares e dos trabalhadores da região, demarcando a relevância sobre prática do esporte na promoção da saúde mental e sobretudo, da inscrição do sujeito em outros territórios de existência. Os espaços de treino passaram a ser também lugar para o fortalecimento da autonomia e cidadania, estabelecimento de novos vínculos e expressão de desejos e interesses. Dos treinos, a possibilidade da inscrição do usuário_x0002_jogador no campo de futebol também validou a inscrição do usuário-sujeito em outros campos da vida. O envolvimento dos usuários nos treinos e no torneio final promovidos pelos serviços de saúde mental trouxe outros desdobramentos reflexivos sobre como frustração, perda, autoconhecimento, controle emocional, autopercepção, e cuidado de sintomas ansiosos aprofundados em outros espaços terapêuticos. A prática do esporte se revelou catalisadora dos processos de cuidado, diante o fortalecimento dos vínculos de confiança entre o sujeito e os trabalhadores e o aumento do protagonismo do sujeito na construção de seu Projeto Terapêutico Singular (PTS) e linhas de cuidado que lhe são únicas. Ao fim, as inúmeras trocas sociais e afetivas produzidas durante os treinos e torneio foram fundantes de novos laços comunitários e territoriais fundamentais para a reinserção social e revisão dos processos de cuidado.
A realização do Torneio de Futebol InterCAPS entre os municípios da região representou para além de uma competição esportiva, uma estratégia de mobilização para o cuidado em saúde. A prática do futebol pelos usuários assumiu ao longo da experiência lugar central para a reabilitação psicossocial, proporcionando aberturas e conexões com outros mundos. Por outro lado, a prática reflexiva dos trabalhadores também se revelou substrato para a criação de uma clínica que percorre tanto o território geográfico quanto o território existencial (LANCETTI, 2016). Pretende-se para este ano a construção de uma nova edição de torneio, mais mergulhada e estendida a outros municípios da região. A esse mergulho complexo retomaremos a potência do esporte na promoção da cidadania e da saúde integral.
Oficina terapêutica e evento esportivo
Flávia Paola Belo Ferreira, Jumara Tayemi Naves Oshiro, Leonardo Cezar Zanesco de Souza, Samanta Cristina Baptista, Regiane Aparecida Cardoso dos Santos