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O grupo Trans-Piradas que ocorre no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) III Praça Chile, iniciado em 29.05.2024, visa proporcionar cuidados integrais em saúde mental aos seus participantes. Tendo como objetivo promover a autoaceitação e o entendimento das questões de orientação sexual, diversidade, identidade sexual e expressão de gênero, na perspectiva de reduzir os sintomas, angústias, fortalecer a autoestima e autonomia, melhorar a comunicação e fortalecer suas relações com o mundo interno e externo, promovendo um espaço seguro e acolhedor de pertencimento, onde possam explorar suas subjetividades, expressar suas inseguranças e aliviar angústias. As pessoas LGBTQIAPN+ frequentemente enfrentam discriminação, estigma e exclusão, resultando em impactos significativos na saúde mental. A criação de grupos como este é fundamental para proporcionar um espaço seguro onde os usuários possam expressar suas subjetividades e vivências, uma vez que o estado brasileiro é o país que mais comete violências contra essa comunidade, que interpassa desde a discriminação, violação de direitos civis e humanos, assédio e rejeição social e violências intrafamiliares, que podem causar adoecimento mental dos sujeitos LGBTQIAPN+.
Promover a saúde mental e o bem-estar dos usuários participantes do grupo Trans-Piradas, com foco na orientação sexual, identidade e expressão de gênero, fortalecendo os vínculos relacionais, afetivos, autonomia e autoaceitação, redução dos sintomas inibitórios e angústia relacionados à sexualidade, orientação sexual, e/ou identidade e expressão de gênero, garantindo a promoção dos direitos fundamentais nos espaços de cuidado. Proporcionar grupo psicoterapêutico, sendo este um espaço seguro para a expressão de inseguranças e fragilidades, focado nas demandas da população LGBTQIA+, promovendo a autoaceitação e fortalecendo os sujeitos participantes. Reduzir preconceitos e discriminação através de ações de sensibilização, garantindo os direitos fundamentais, promovendo e fortalecendo a saúde mental, vínculos relacionais dos familiares e sujeitos participantes, promovendo a comunicação não violenta e o bem-estar psíquico do usuário.
Encontros semanais tendo duração por encontro de 01 hora e 30 min, com foco na escuta ativa e devolutivas com interpretações teorizadas, dinâmicas de grupo, partilha de experiências, que terá como base a teoria e técnica psicológicas e psicanalíticas, técnicas operativas para trabalhar as interações do grupo e suas tarefas, com contribuições dos integrantes e sua comunicação bem como a partilha das suas vivências, pensando a sexualidade, interação e integração dos objetos bons e maus, oferecendo suporte e visibilidade, continente, para os in-suportáveis, in-visíveis desta sociedade excludente e homofóbica. Ao final de cada encontro, promover técnicas de relaxamento e/ou prática meditativa, e para extra CAPS, pensar nas atividades de expressão artística e acessos a outros espaços de cuidado e saúde. Oficinas com temas sobre diversidade sexual e de gênero, direitos LGBTQIA+, saúde mental e bem-estar, estratégias de enfrentamento ao preconceito e garantia dos direitos fundamentais. Ações de sensibilização e promoção de direitos, atividades, campanhas de conscientização, utilização de espaços públicos, atividades e passeios terapêuticos, eventos culturais, oficinas, atividade física, dança, músicas, com o objetivo de promover a inclusão e o direito por todos os participantes do grupo Trans-Piradas. Promoção e articulação com os demais dispositivos de saúde da rede, assistência social, educação e defensoria pública.
Inicialmente, não havia espaços de escuta qualificada para a população LGBTQIAPN+ nas dependências do CAPS Praça Chile. Com nossa chegada enquanto profissionais nesta unidade, percebemos a deficiência do serviço, então repensamos e promovemos o grupo psicoterapêutico Trans-Piradas, como espaço de cuidado, escuta e continente. Com a criação deste espaço, autorizado pela gerente da unidade Bruna Badolato, foram surgindo demandas dos usuários, onde apresentaram diversas situações de violências, inclusive algumas cometidas anteriormente por profissionais da rede, o que provocou um distanciamento dos usuários com o serviço de saúde mental, levando algumas figuras a romperem com o tratamento dos cuidados nesta unidade. Os participantes relataram que não se sentiam confortáveis em participar de atividades realizadas na unidade, onde não eram respeitados como pessoa, encontrando resistência em respeitar seus nomes e pronomes. Em uma situação relatada por um dos participantes, ele contara que, ao chegar à época nesta unidade, já se identificava como homem transgênero, e fora inserido para cumprir seu Projeto Singular Terapêutico (P.T.S) em um grupo terapêutico feito para mulheres, onde o mesmo, por falta de identificação, acabou rompendo com o tratamento e o serviço. Onde, dois anos depois, esse mesmo usuário volta após tentativa de suicídio. Atualmente, os usuários inseridos no grupo Trans-Piradas relatam identificação com o serviço, onde se sentem acolhidos e cuidados.
O trabalho desenvolvido com o grupo Trans-Piradas, revelou desafios significativos enfrentados pela população LGBTQIAPN+ no acesso e permanência em espaços de cuidado em saúde mental. A análise das vivências relatadas evidenciou que, para parte dos usuários, o ambiente do CAPS não se configurava como um espaço de acolhimento e respeito às suas orientações, identidades e expressão de gênero, gerando barreiras que dificultam o acesso e o cuidado. O grupo Trans-Piradas desempenhou um papel essencial e espaço seguro de expressão e troca entre seus membros, permitindo que as identidades e subjetividades sejam legitimadas. No entanto, para que iniciativas como essa sejam sustentáveis e ampliadas, é fundamental que os promotores de saúde, se posicionem de forma ativa com reconhecimento da diversidade de gênero como elemento nuclear em saúde mental. Concluímos que a promoção da saúde mental de pessoas LGBTQIAPN+ passa necessariamente pela construção de um sistema de saúde que respeite e valorize suas existências, transformando o CAPS em um espaço como continente. Espera-se que o aprendizado gerado por este trabalho inspire novas práticas institucionais que promovam justiça social e equidade no cuidado.
Cuidados integrais, auto aceitação, LGBTQIAPN+.
ANTONIO DE SOUSA E SILVA, RONISON EVANGELISTA DA SILVA, BRUNA BADOLATO