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Contaremos um caso que pode indicar processos de produção do cuidado, de redes e produzir “mais vidas nas vidas vividas”, como diz Merhy (2016). Em Jandira (cerca de 118 mil habitantes), D. Maria, nascida em Petrolina-PE, 60 anos, 3 filhos: Cidinha, que mora na mesma rua, lá D. Maria almoça, janta, se banha e brinca com os netos. A filha Silene mora em Pernambuco e Marco Antônio construirá nos fundos da casa da mãe. Casada, mora há alguns metros da Unidade Básica de Saúde (UBS) Ouro Verde, mas lá ninguém a vê, pois ir lá não quer nem saber. Tem hipertensão e Transtorno de Acumulação. Sua casa tem entulhos do teto ao chão. Tem gatos, ratos, precisa de desratização, dedetização, higienização e organização. Recebeu visita domiciliar de diversos profissionais. Dos vizinhos, só reclamação do mau cheiro, da falta do banheiro e do lixo que transborda. D. Maria vende jornais, vidros, papeis, papelão em troca de um tostão. A equipe se reuniu para elaborar um Projeto Terapêutico Singular (PTS) para D. Maria voltar a desejar coisas que só ela pode falar. O Transtorno da Acumulação (TA) trata-se de uma psicopatologia caracterizada pela aquisição compulsiva de objetos ou animais, dificuldade em desfazer-se dessas posses e, por consequência, problemas de desorganização do ambiente de convívio, sendo estas consideradas critérios de classificação para diagnóstico (APA, 2013). Em geral, pessoas em situação de acumulação apresentam pouca adesão ao tratamento e, muitas vezes, é necessária com
• Favorecer a integração entre a Vigilância em Saúde e AB incluindo o trabalho conjunto entre Agentes Comunitários de Saúde e Agentes de Combate às Endemias; • Aprimorar a produção do cuidado a pessoas em situação de acumulação com enfoque na integralidade, singularidade e resolutividade negociada; • Exercitar a elaboração de PTS entre equipe, familiares e apoio em Humanização; • Reconhecer que a abordagem com pessoas em situação de acumulação exige intervenções que considerem a compreensão das necessidades, o que é útil para cada pessoa e conversas mediadoras para negociações.
Relato de experiência sobre o cuidado ao portador de Transtorno de Acúmulo no município de Jandira. Os casos são identificados e apresentam importantes problemas de sofrimento psíquico, condições precárias e insalubres para os moradores e agravos à saúde pública do entorno das moradias. A partir da Coordenação da VS foram realizadas ações no caso D. Maria, como: visitas domiciliares em conjunto com a UBS, ACS, ACE, Zoonoses; reuniões de equipe; contatos com os familiares; elaboração de cronograma de cuidado; adoção de limpeza do imóvel e remoção de lixo negociadas com a moradora; manejo dos gatos para cuidado e prevenção de agravos; entre outras. O processo de trabalho destaca-se pela abordagem da coordenação em VS pois aposta e exercita diretrizes fundamentais como acolhimento, negociação, não imposição do que é útil ou não, interesse legítimo na moradora e seus gatos, inclusão da UBS e dos ACS e ACE. Outro destaque foi o exercício da elaboração do PTS com a equipe da UBS, familiares e apoio das Articuladoras de Humanização da SES/SP. O caso D. Maria ampliou o processo de trabalho no município para os casos mais complexos em relação a acumulação. Também se destaca como referência para a experiência, o Decreto Municipal de São Paulo nº 57.570 de 28 de dezembro de 2016, que institui a Política Municipal de Atenção Integral às Pessoas em Situação de Acumulação e indica o PTS como uma das atribuições das equipes.
Após primeira abordagem, D. Maria mostrou a casa e aceitou a limpeza e venda dos materiais para reciclagem. Assim, foi realizado trabalho em conjunto com ACE, ACS, empresa de reciclagem e D. Maria na separação dos materiais e venda. Foram retirados um total de 243 quilos de materiais, rendendo R$120,00 para D. Maria. Em continuidade aos cuidados, ocorreu a roda de conversa na UBS com equipe, VS, filha, genro e Articuladoras para construção do PTS. Destacamos algumas falas importantes: “Ela gosta de cozinhar, rezar e seu vínculo na UBS com toda certeza é com Ana Claudia (VS) e com Neuza (ACS), com as quais gosta de conversar. Ela vai viajar para Pernambuco, vai visitar a mãe e quando voltar vamos negociar ‘você tira os materiais e a gente levanta uma parede na casa gemelar para o vizinho não mais reclamar’. Sinais de um novo lar!”. Aos poucos o vínculo entre D. Maria e equipe foi se intensificando. O que era útil para ela foi considerado legítimo, o que era útil para a equipe foi sendo negociado, as perspectivas foram se ajustando. Cuidar dos gatos foi importante para D. Maria; o plano de uma nova parede na divisão com os vizinhos foi considerado importante e negociado com a família; a viagem foi incentivada; alguns materiais foram sendo retirados aos poucos, mas ainda muito por negociar. No processo de cuidado algumas percepções reveladas pelos envolvidos, como: tristeza, medo, sustos, alegrias e apostas nas transformações que ampliam as vidas vividas.
Dos objetivos do relato, consideramos avanços importantes sobre a integração entre a Vigilância em Saúde e AB. O envolvimento dos ACS e ACE na elaboração, discussão e execução do PTS foi oportuno para ampliar o cuidado para além da lógica higienista em casos de acumulação. O trabalho em equipe também favoreceu a negociação do cuidado, pois na casa de D. Maria só ela é legítima para conversar e produzir acordos sobre o que é útil e o que não é para ela. O roteiro do PTS, com apoio da Humanização, incluiu aspectos de produção de vida com inclusão da rede afetiva e familiar, expectativas de cuidado e negociação de propostas de intervenção. Aspectos que consideram a compreensão das necessidades, a qualidade das relações e integralidade do cuidado. O caso D. Maria foi oportuno para o município analisar a produção da assistência para outros tantos casos difíceis e que envolvem ações integradas entre VS e AB. Sabemos dos desafios em relação a TA, e que ainda há muito a avançarmos enquanto saúde, principalmente porque enfrentamos contradições entre o consumo excessivo e a grande desigualdade social. Com este relato reafirmamos que, ao incluirmos
transtorno acumulação
Ana Claudia Barbosa Oliveira