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A vigilância em saúde tem por objetivo a observação e análise permanentes da situação de saúde da população, articulando-se em um conjunto de ações destinadas a controlar determinantes, riscos e danos à saúde de populações que vivem em determinados territórios, garantindo-se a integralidade da atenção, o que inclui tanto a abordagem individual como coletiva dos problemas de saúde1. Alguns problemas de saúde somente podem ser pesquisados no nível coletivo e a epidemiologia fornece os conceitos, o raciocínio e as técnicas para estudos no campo da abordagem coletiva2. Percebe-se no campo da saúde, principalmente nos municípios, o predomínio da utilização de técnicas de abordagem individual sobre as técnicas da abordagem coletiva. Esse desequilíbrio pode comprometer a adoção de políticas públicas impactantes para alterar a situação de saúde da população. São José dos Campos, SP, com cerca de 700 mil habitantes, está entre os municípios que tem um corpo técnico multidisciplinar na área Vigilância em Saúde com boa formação na abordagem individual, mas com deficiência de formação na abordagem coletiva. Por isso, se justifica um projeto de disseminação de uma visão coletiva na instituição, por meio de treinamentos em epidemiologia.
Familiarizar, exercitar e motivar os profissionais de vigilância em saúde para realizarem estudos epidemiológicos em serviço, de modo a melhor descreverem e analisarem as condições de saúde, os fatores determinantes, bem como avaliarem os resultados das ações de saúde.
O público-alvo multidisciplinar foi composto por profissionais de: vigilância das doenças transmissíveis; vigilância das doenças e agravos não transmissíveis, vigilância da situação de saúde, vigilância ambiental em saúde, vigilância da saúde do trabalhador e vigilância sanitária1. O responsável pelo treinamento foi um médico sanitarista da própria institituição, que justificou e obteve apoio ao projeto junto aos gestores. O método de ensino-aprendizagem foi baseado numa proposta na qual os participantes reproduzissem a realização de todas as etapas de uma pesquisa em serviço a partir de um estudo pré-existente, indo desde a identificação do problema e sua delimitação, revisão de literatura, levantamento de hipóteses, justificativa, objetivos e aspectos éticos; até a metodologia, coleta dos dados, descrição e análise dos dados, discussão, conclusões e recomendações. O programa incluiu os seguintes tópicos: tipos e usos de indicadores; cuidados e manejo de bases de dados prímárias e secundárias; fontes de erros em pesquisa; delineamentos de pesquisa; epidemiologia descritiva e analítica; introdução à bioestatística com testes de hipóteses, de confiabilidade de dados e amostragem (exercícios em Epi-Info, Epidat, Tabwin/Tabnet). Além disso, foram demonstrados métodos de pesquisa qualitativa, pesquisa bibliográfica, apresentação de tabelas, quadros e figuras, elaboração de boletim e relatório de pesquisa.
Os treinamentos foram realizados de forma presencial, de julho de 2024 a dezembro de 2024. Foram treinados 29 profissionais em 5 treinamentos de 30 horas/aula cada, com turmas de até 6 pessoas. Foi realizada uma aula de 4 horas por semana por turma, mais exercícios para discussão. Cada participante fez um pré-teste, um pós-teste e elaborou um protocolo da pesquisa em serviço baseado na necessidade do serviço, utilizando o conhecimento adquirido. A formação dos servidores foi diversificada, sendo dezesseis enfermeiras, três analistas de gestão, três veterinários, duas médicas, uma dentista, uma higienista dental, uma farmacêutica, um biólogo e um fisioterapeuta. As áreas representadas, que de forma direta ou indireta atuam na vigilância em saúde foram: atenção primária (7 pessoas), atenção secundária (2 pessoas), atenção terciária (2 pessoas), regulação (2 pessoas), gestão administrativa e finanças (1 pessoa), vigilância de doenças crônicas (5 pessoas), vigilância epidemiológica (7 pessoas), controle de zoonoses (3 pessoas). A multidisciplinaridade foi fundamental para o entendimento dos participantes sobre a importância da utilização do método epidemiológico no dia a dia dos serviços para uma abordagem coletiva. Apesar de o treinamento ter sido entremeado com as atividades de rotina dos servidores, estes tiveram elevada frequência, motivação e participação.
Esta experiência não teve como objetivo formar epidemiologistas e sim despertar no público-alvo a percepção de que a epidemiologia é uma ferramenta essencial para uma abordagem coletiva dos problemas de saúde de uma população. Foi uma aproximação, ou reaproximação para alguns, com o método científico na prática. Capacitar trabalhadores de todas as áreas da vigilância em saúde em epidemiologia é de grande importância. Espera-se que esta experiência tenha sido capaz de fomentar o estudo e despertar para a necessidade de utilização de técnicas adequadas para o planejamento e a elaboração de políticas públicas. Recomenda-se a expansão desse treinamento para o maior número possível de profissionais de saúde, de forma intersetorial e multidisciplinar.
Epidemiologia, Treinamento, Vigilância em saúde.
LUÍS PAULO RODRIGUES MELIONE, MARIANA KEESEN DE SOUZA LIMA, MARGARETE CARLOS DA SILVA CORREIA