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A adolescência, compreendida entre os 10 e 19 anos segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é uma fase crucial para o desenvolvimento da identidade e para a compreensão das mudanças que antecedem a vida adulta. Esse período tem início com as alterações físicas da puberdade e é marcado por intensas transformações biopsicossociais, que provocam uma série de dúvidas e incertezas. Muitos vivenciam sentimentos de confusão e enfrentam dificuldades para tomar decisões, em razão das mudanças em seu papel social. Além disso, o estigma frequentemente associado à juventude contribui para a desvalorização desse processo de amadurecimento, deslegitimando suas vivências e desafios. O enfermeiro na Estratégia Saúde da Família, pela sua inserção no território, tem como prática fundamental ações voltadas à educação em saúde, que consideram a população adscrita e as vulnerabilidades a ela atreladas. Dessa forma, realiza acompanhamento longitudinal desta faixa etária com atividades de promoção em saúde, prevenção de agravos e desenvolvimento da autonomia. Tendo em vista estes possíveis conflitos de emoções que agem sobre os jovens, faz-se necessário intervenções em saúde nesse público, como estratégia de apoio e acompanhamento. Assim, planejamos uma atividade em grupo entre a saúde (enfermeira e a equipe multiprofissional) e a educação, com adolescentes de uma escola situada na Vila Progresso/Santos com o objetivo de discutir saúde mental de adolescentes neste território.
O projeto Trocando Ideias, teve por objetivo principal promover encontros para falar de saúde mental. E como objetivos específicos estabelecer vínculos entre o serviço de saúde, a escola e os adolescentes deste território, bem como incentivar a autonomia destes jovens.
Trata-se de um projeto da saúde com a educação voltado para adolescentes, desenvolvido por uma enfermeira durante a residência multiprofissional. Com o propósito de valorizar os saberes e tendo em vista a realidade singular de cada estudante, o grupo foi nomeado Trocando Ideias, dando uma característica extrovertida, possibilitando o diálogo horizontal, sem julgamentos. A intervenção foi realizada em uma Escola Estadual na Vila Progresso, entre setembro e novembro de 2024. O planejamento envolveu três reuniões com a equipe eMulti (enfermeira, assistente social, fisioterapeuta, educador físico, psicóloga, ACS e estagiários) para definir temas e encontros. O grupo foi composto por alunos do 1º ano do Ensino Médio (15 a 18 anos) do turno matutino. Foram realizados cinco encontros quinzenais, às sextas-feiras, com duração de duas horas, utilizando materiais diversos (papel, lápis, cartolina, etc.). Os alunos puderam contribuir com o planejamento através de sugestões inseridas na caixa de demandas. Os encontros foram coordenados pela equipe de saúde abordando temas pertinentes à adolescência para incentivar o protagonismo e o autocuidado. O diário de campo foi utilizado como instrumento de observação e reflexão sistemática, documentando fatos, impressões e análises sob a ótica da enfermeira residente, com postura ética e respeitosa.
Para a Apresentação do Projeto utilizamos da dinâmica Corrente de Canetas criando um ambiente descontraído e leve, firmando a formação do vínculo com os adolescentes. Também apresentamos a caixa do Trocando Ideias para coleta anônima de devolutivas e temas. No segundo encontro discutimos Sentimentos e Emoções. Os alunos relataram dificuldade em lidar com emoções “negativas”, especialmente a ansiedade antecipatória e a invalidação emocional. Uma vez que sentir-se incompreendido e/ou sem espaço seguro para expressar sentimentos pode levar à internalização do sofrimento, ao aumento de sintomas ansiosos e depressivos e até a comportamentos impulsivos ou auto-negligentes como forma de lidar com a invalidação. No terceiro encontro Medos e Inseguranças os alunos relataram sofrer com o impacto da violência policial no território e incertezas relacionadas ao futuro. Durante o debate, ficou evidente que permitir-se ser vulnerável torna-se um desafio, pois o medo e a insegurança conflitam com o desejo de autonomia e independência. No último encontro abordamos Perspectiva de Futuro e Direitos Sociais. Nota-se que a grande maioria dos estudantes desconhece a totalidade de seus direitos, destacando a importância da educação emancipatória. O grupo encerrou com a dinâmica FutureMe, escrevendo cartas para si mesmos, promovendo um exercício reflexivo acerca de suas trajetórias e vivências.
O grupo foi exitoso pois mobilizou os jovens, a escola e a saúde para debater saúde mental. Tivemos boa participação dos adolescentes, que se colocavam e traziam falas e reflexões importantes. Todavia, também tivemos barreiras como falta de espaço dedicado ao grupo na grade curricular, e baixa participação das equipes envolvidas. As dificuldades refletem desafios estruturais, como agendas conflitantes e a priorização de ações individuais. Na equipe de saúde, em especial para a enfermeira residente, esta experiência permitiu melhor compreensão da realidade dos adolescentes, provocando reflexões profundas que contribuíram para a forma de pensar e produzir cuidado. O projeto Trocando Ideias destaca a importância da educação em saúde nas escolas e da intersetorialidade para o fortalecimento da Saúde da Família e Comunidade. Apesar dos desafios, o engajamento demonstrado pelos participantes abriu espaço para uma segunda edição, planejada para promover informação segura sobre educação em sexualidade – o Trocando Ideias – parte 2.
Adolescente, Educação em Saúde, Processos Grupais
ANNA BEATRIZ LOPES FEITOSA, GLAUCIA TOBALDINI, TATIANE SANTOS MOREIRA, VINICIUS PESTANA, VERONICA SOUZA DA CRUZ