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Segundo o Ministério da Saúde, o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) oferece atendimento em saúde às pessoas com transtorno mental. Em Descalvado/SP, conta-se com o CAPS I, que atende pessoas a partir de 18 anos, que apresentem transtorno mental transitório ou persistente, incluindo a dependência química. Uma das profissionais da equipe que compõem o CAPS-Descalvado é a psicóloga, que presta atendimentos em psicoterapia nas modalidades individual e em grupo. A usuária protagonista deste trabalho é cega-surda, apresentando diagnósticos concernentes à perda de audição bilateral neurossensorial e deficiência visual em ambos os olhos; e faz uso de implante coclear, que é um dispositivo implantável utilizado para restaurar a função da audição em pessoas com deficiência auditiva profunda. A usuária apresenta o quadro degenerativo desde a infância, com perda total da visão aos 13 anos e da audição aos 17 anos. A usuária foi encaminhada pela fonoaudióloga, com queixas concernentes a transtorno de humor; dificuldades em relações interpessoais e contato com o mundo; além de projeto de vida pouco elaborado e consistente. Este trabalho se justifica no sentido de incentivar o atendimento em saúde mental às pessoas com deficiência, considerando, inclusive, o princípio do SUS quanto à equidade; divulgar o trabalho que vem sendo co-construído; e possibilitar a ampliação do trabalho para outras pessoas que também apresentam as mesmas demandas e ainda não foram absorvidas pelo serviço.
O objetivo do atual trabalho é apresentar o relato de experiência vivenciado no CAPS, de Descalvado/SP, na intervenção psicoterapêutica de uma usuária do Sistema de Saúde, com deficiência auditiva e visual. Os objetivos específicos da psicoterapia têm sido elaborados ao longo do processo, pautando-se no objetivo geral de trabalhar a construção de autoestima e autonomia; desenvolvimento de habilidades sociais, voltadas para comunicação, gerenciar emoções e relações interpessoais; além do fortalecimento do projeto de vida.
Inicialmente, foi construído e fortalecido o vínculo paciente-terapeuta, considerando ser a primeira experiência da usuária em atendimento psicoterapêutico e o vínculo ser uma das partes principais para a dinâmica da psicoterapia, especialmente em uma relação com pessoas que apresentam deficiência e dificuldades sensoriais importantes. Nos dois primeiros meses, a psicoterapia foi mediada por uma intérprete de confiança da usuária, até ela passar a reconhecer a voz da psicóloga, por meio de treinamento, e poder ter autonomia e independência para o processo de psicoterapia. As demandas a serem trabalhadas foram sendo elencadas a partir da melhora na expressão, com o estímulo da comunicação e com o espaço de privacidade, agora, passando a contar apenas com a presença da usuária e psicóloga. Após isso, o processo psicoterapêutico seguiu os métodos preconizados pela abordagem da profissional, com técnicas, procedimentos e ferramentas psicológicas.
A usuária, no princípio, apresentava dificuldades quanto à comunicação, especialmente, por falta de repertório e também porque a sua condição diagnóstica afetou memória e linguagem. Ressalta-se que a usuária, após três meses de tratamento, passou a frequentar outros espaços no CAPS, como oficinas terapêuticas, que visavam complementar a estimulação quanto às relações interpessoais. As demandas foram relativas à sua história de vida e doença; transtorno de humor; relações familiares e interpessoais; relação com o mundo a partir de sua deficiência; construção de autoestima e autonomia; além de estimulação cognitiva. De forma gradual e constante, tem apresentado melhora significativa do transtorno de humor e gerenciamento de emoções, com maior autocontrole e compreensão dos sentimentos; quanto à comunicação e assertividade (passou a se posicionar em diversos cenários, mesmo não ouvindo o interlocutor); quanto à construção de autoimagem e autoestima, em que percebeu suas potencialidades, em meio aos desafios (como encontrar ferramentas para realização da maioria das suas atividades sozinha); quanto à autonomia e independência, associando as terapias ocupacional e fonoaudiológicas; quanto ao incentivo ao pensamento crítico e criativo, proporcionando elaboração de projeto de vida (como sua aprovação em Concurso Público); e quanto à estimulação cognitiva, com aumento de repertório comportamental, rotina mais adequada à sua faixa etária e aprimoramento de atenção e memória.
Este relato de experiência se propõe a trazer reflexões e propostas para ampliação da inclusão de pessoas com deficiência nos espaços de construção de saúde mental, muitas vezes, negligenciados pelo despreparo do espaço físico e também pela ausência de capacitação profissional. A usuária segue realizando suas terapias, considerando essas conquistas como processo em permanente andamento. Portanto, o espaço ocupado por ela foi se estendendo, inclusive para espaços de grupos, que refletem a vida extramuro e a convivência social. Ressalta-se que este trabalho realizado e relatado de forma individualizada pode ser disseminado para outros usuários e para outros serviços de saúde, que apresentam demandas semelhantes. A divulgação desta experiência visa enaltecer o processo individual perpassado pela usuária, que só se constrói pelo seu investimento pessoal, mas também pode ser exemplo para outras experiências que ainda estão sendo iniciadas ou que precisavam deste estímulo iniciarem. Palavras da usuária: “Psicoterapia é acolhimento; onde posso contar minha história de forma genuína. A cada sessão vou aprendendo a fazer as pazes com a minha história e assim ir construindo uma vida mais leve, autônoma, independente e consciente”.
psicoterapia; inclusão; saúde mental; caps
GLAUCIA REGINA AMARAL PINA, LUCIANA MARCATTO RESQUINI