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Em recente pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizada em 2022, temos que a maioria da população (45,3%) se identificou como sendo “pardo”. Tal dado traz um ineditismo porque, se por uma via há um crescente debate sobre as pautas raciais nas universidades, nos movimentos sociais e nas mídias de forma geral, por outro lado, a população negra segue ocupando as camadas mais pobres e excluídas de nossa sociedade, evidenciando, assim, o racismo estrutural. Nos últimos anos, as discussões alavancadas pelos movimentos sociais têm priorizado a construção de políticas públicas inclusivas, que visem o enfrentamento às desigualdades, promovendo o acesso a bens e serviços públicos (DAMASCENO & ZANELLO, 2018). Devido a isso, a Politica Nacional de Saúde Integral da População Negra foi instituída em 2009 pelo Ministério da Saúde e, a partir desse marco, o reconhecimento de que o racismo e as desigualdades étnico-raciais afetam a saúde mental da população negra. Na Unidade de Acolhimento Adulto (UAA) de Jundiaí/SP, após o crescente relato dos moradores envolvendo a vivência de episódios de violência, preconceito, discriminação racial e racismo, os orientadores sociais do período noturno propuseram acompanhá-los na programação da Rota Afro, no mês da Consciência Negra. A ação se inscreve como forma de dar visibilidade ao protagonismo negro na construção da história do município, combatendo o apagamento e o sofrimento produzidos pelo racismo.
A presente ação tem como objetivo ampliar o debate sobre o racismo e seu impacto na saúde mental, através da participação dos moradores da Unidade de Acolhimento Adulto (UAA) de Jundiaí na Rota Afro, atividade promovida pela Unidade de Gestão de Cultura do município. A partir de proposições como essa, busca-se ampliar o debate sobre o racismo e seu impacto na saúde mental, bem como a de promover ações direcionadas às necessidades da população atendida.
De acordo com o levantamento do perfil dos usuários inseridos na UAA, de novembro de 2020 à janeiro de 2024, temos que 60,3% destes se declararam no quesito “cor/raça” como sendo “preto” ou “pardo”. Nos relatos, dentro do cotidiano do trabalho, se, de um lado, eles conseguiam identificar em suas trajetórias vivências ligadas à discriminação racial, por outro lado, percebeu-se que, na maioria dos casos, os moradores não conseguiam nomear as violências sofridas e o sofrimento advindo delas como sendo fruto do racismo estrutural. Com o intuito de abordar tal temática, durante os plantões começamos a desenvolver ações pontuais dialogando sobre cultura popular afro-brasileira, através de assembleias, saraus e rodas de conversa. Em novembro de 2023, mês da Consciência Negra, propusemos a participação dos moradores na Rota Afro, iniciativa desenvolvida pela Unidade de Gestão de Cultura, que visava ampliar a compreensão sobre o protagonismo da população negra na constituição da sociedade jundiaiense, através de uma visita monitorada em pontos da cidade ligados à presença e à história da população negra. Os moradores se interessaram em compreender melhor o tema, de modo que a Rota Afro, no mês da Consciência Negra, passou a ser uma oportunidade de entender mais sobre a negritude e o efeito do racismo em nossa sociedade.
Uma vez que, antes da Rota Afro, alguns moradores não se reconheciam enquanto pessoas negras, após a vivência na atividade puderam estabelecer relação entre a sua história de vida e o impacto do racismo no apagamento da história da população negra. Dito isso, o reconhecimento da própria história, a partir das trocas de experiências durante a visita, proporcionou que cada usuário pudesse olhar para si enquanto pertencente a uma raça/etnia e identificasse em seu cotidiano a linguagem, o comportamento e as atitudes racistas reproduzidas em seu meio de convívio, sendo estas atribuídas enquanto experiências traumáticas. Considerando que, na UAA, ofertamos cuidado para pessoas em alta vulnerabilidade social que fazem uso de substâncias e, em sua, maioria são pessoas pretas ou pardas, ações como essa são de grande importância, no sentido de dar visibilidade à uma questão ainda silenciada nas práticas de cuidado em saúde e no campo social, de forma geral.
Se por um lado no censo do IBGE de 2022, a população parda representa a maioria da população brasileira, por outro lado, permanece invisível em relação à coleta de dados dos serviços de saúde mental relativos ao pertencimento étnico-racial. Percebe-se que o trabalho aqui relatado sobre a temática racial ainda se mostra insuficiente, seja pela oferta ainda reduzida de ações efetivas de enfrentamento às desigualdades de forma longitudinal, seja ainda pela pouca compreensão dos profissionais acerca do racismo enquanto um fator determinante para o adoecimento em saúde. É, também, necessário fomentar maior compreensão sobre como o racismo opera na sua multiplicidade de manifestações, inclusive no comportamento e atitude dos profissionais que, ao não considerarem o componente etnia/raça na compreensão sobre o adoecimento dos sujeitos que atendem, endossam o apagamento e o sofrimento produzidos pelo racismo.
Racismo, Unidade de Acolhimento
Alexandre Moreno Sandri, Thais Dainez Souza, Tânia Regina Felix, André Luiz Firmino