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Este trabalho é um relato sobre o processo de desinstitucionalização de uma pessoa que ficou internada por mais de uma década em instituições psiquiátricas e foi morar em uma residência terapêutica na região Oeste do município de São Paulo. Essa experiência tem sido muito desafiadora por conta do histórico de agressividade desse morador, que demandou desde o início do processo um investimento intensivo dos profissionais da rede do território. Foram utilizadas como estratégias principais, discussões e ações intersetoriais diversas que foram tornando possível a construção de uma nova possibilidade de vida fora dos muros do hospital, na perspectiva do cuidado em liberdade. O exercício de desempenhar outros papéis sociais para além da patologia tem sido um enorme aprendizado de descobertas diárias e surpreendentes. Essa experiência nos mostra que dificuldades existem, desafios se apresentam cotidianamente, mas é possível superá-los a partir de uma prática inclusiva em rede na perspectiva da reabilitação psicossocial e reforma psiquiátrica “de construção de um novo discurso e uma nova prática no lidar com a loucura e o sofrimento mental, fora do discurso psicopatológico e contra a exclusão social dos sujeitos em crise ou vulnerabilidade psicossocial, e a favor de uma sociedade sem manicômios” (AMARANTE, 2018).
Este trabalho tem como objetivo apresentar os resultados positivos de um processo de desinstitucionalização que se apresentava muito desafiador pela característica de violência de um morador, que, por conta de sua história de vida, comportamentos aprendidos, diagnóstico psiquiátrico e longo período de institucionalização, tornava muito difícil a permanência no SRT, com episódios frequentes de agressão física e verbal contra profissionais e outros moradores. A saída de uma pessoa que viveu em instituição asilar para uma moradia na comunidade é um momento delicado e o início de um longo processo que exige o envolvimento de muitos atores, um coletivo que assuma essa responsabilidade compartilhada a partir de um projeto terapêutico construído e redefinido a cada momento em que novas questões se apresentam. Essa experiência se deu a partir de um trabalho desenvolvido em rede, no território, que demonstrou ser potente, tornando possível, ainda que complexo, o cuidado em liberdade.
Para o acompanhamento do caso, foram realizadas diversas reuniões de rede, incluindo profissionais do SRT, Hospital Psiquiátrico de origem, três CAPS do território, além do CAPS de referência anterior, CECCO, UBS, CER, Coordenadoria e Supervisão de saúde, Acompanhante Terapêutico, além de supervisão clínica e institucional. As discussões, reflexões, trocas, alinhamentos e melhor comunicação entre todos os envolvidos, assim como a possibilidade de uma equipe de referência, oferecendo apoio, suporte e retaguarda de prontidão, foram fundamentais na sustentação do morador fora dos muros do hospital. O acolhimento integral no CAPS sempre que necessário, foi a principal estratégia de cuidado, em parceria com a equipe da residência, que esteve presente cotidianamente, garantindo o vínculo com a moradia e participando ativamente do processo. O CAPS passou a ser o lugar seguro para estar, com equipe e espaço físico maiores, permitindo dar continência aos momentos de desorganização, identificar gatilhos que auxiliaram as equipes a anteciparem crises, intervindo precocemente e evitando o agravamento dos quadros de agitação. Sinais de desconforto clínico, também observados como disparadores, eram avaliados conjuntamente com a equipe da UBS e acompanhamento da equipe de saúde bucal. O convívio com a família tem sido também parte das ações apoiadas pelas equipes e apresenta papel fundamental no processo de produção de vida do usuário.
A saída do hospital psiquiátrico para a vida em comunidade é apenas o início de uma trajetória em direção à reabilitação psicossocial. Dentre as várias estratégias de cuidado nesse processo, o fortalecimento de vínculos com os profissionais, a vivência de situações diversas, socialização, lazer e outras experimentações, assim como lidar com sentimentos de raiva e frustrações em um ambiente institucional intermediário entre o hospital e a moradia, contribuíram na aquisição de um novo repertório que gradualmente pôde ser reproduzido na nova casa, aos poucos ressignificada como um novo lar, um lugar afetivo, possível de desejar, estar e permanecer, ou seja, habitar. Ao experimentar relacionar-se de outras formas, constituindo-se como um sujeito desejante, querido, capaz e único, foi sendo possível se apropriar desse espaço e construir este lugar enquanto casa. Adquirir documentos e benefícios ainda não acessados possibilitaram a construção de um novo lugar social, direito a outros tipos de trocas, possibilidade de escolhas e expressão de singularidade. Aos poucos estar integralmente no CAPS deixou de ser necessário, tornando-se espaço de convivência e de novos projetos. Neste trânsito entre CAPS e SRT, a casa da mãe também se tornou um lugar de visitas, almoços com refrigerante, bolo, fotos antigas, e boas conversas. Os resultados desse processo têm sido muito positivos demonstrando a potencialidade do trabalho em rede como base fundamental no processo de desinstitucionalização.
O muro concreto do manicômio pode ser reproduzido simbolicamente em práticas institucionais atuais, se manter presente enquanto modelo de concepção de cuidado, relações de poder e tutela, liberdade cerceada e ausência de possibilidade de escolhas. Nesse sentido busca-se evitar a reprodução do modelo manicomial, sustentando o cuidado em liberdade em sua essência, oferecendo suporte para que barreiras sejam rompidas, diferenças respeitadas, validadas e sustentadas em um tempo próprio, processual, mas contínuo, onde potências são mais relevantes que limites, ambos redefinidos a cada momento. A partir do vínculo, construção, implementação e sustentação de projetos terapêuticos e ganho de autonomia que esses aspectos vão se delineando, redefinindo, e possibilitando o surgimento de novas histórias possíveis fora de todos os muros, concretos e simbólicos, na perspectiva da reforma psiquiátrica. O processo é intenso, um investimento constante que dura quatro anos, cujo trabalho vem demonstrando que cuidado em liberdade é possível, transforma vidas, cria novas identidades, constrói sentidos, realiza sonhos, resgata direitos e é parte fundamental na construção de uma sociedade mais inclusiva e justa onde as subjetividades são respeitadas.
desinstitucionalização, trabalho em rede
CAMILA LOPEZ APOSTOLICO, CLARICE MADALOSSO KERR