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Pensando na crescente demanda de atendimento a crianças com TEA, o município de Suzanápolis encontrou uma abordagem utilizando os recursos disponíveis. Um fisioterapeuta que faz atendimento domiciliar nos assentamentos existentes no município recebeu encaminhamento para atender uma pessoa idosa com cirurgia recente de prótese de joelho. Após um mês de busca ativa sem encontrar o paciente no domicílio, a família relatou que o mesmo permanecia o dia todo no cemitério em um município distante onde o filho de 40 anos havia sido sepultado. Durante a fisioterapia, o paciente foi relatando como se sentia em relação à morte do filho, perdendo a vontade de viver, não tinha prazer nas atividades do dia-a-dia e a esposa demonstrava sua grande preocupação com ele. O paciente disse que o filho era “especial”, muito bom em matemática e desenho mas não gostava de socializar e tinha crises de agressividade e contou que gostava de música, buscou sua sanfona e começou a tocar! Então, o fisioterapeuta deu a sugestão que ele participasse de um grupo terapêutico de crianças parecidas com seu filho. O paciente sabia tocar vários instrumentos e teve uma banda. Em reunião multidisciplinar, a fonoaudióloga e psicóloga se interessaram pela história. A fonoaudióloga tinha demanda específica de crianças com TEA e a psicóloga ofereceria maior apoio ao paciente sanfoneiro que encontrava-se com dificuldade em processar seu luto e com isso surgiu o Grupo Terapêutico.
Os objetivos principais eram favorecer a expressividade, socialização, desenvolvimento de fala e linguagem com as crianças de 3 a 6 anos com diagnóstico de TEA encaminhadas ao serviço de saúde municipal. Outro objetivo era o acompanhamento do paciente idoso que estava com dificuldade de lidar com perda do filho, apresentando sinais expressivos de humor deprimido. A melodia envolvente e repetitiva favorece o aprendizado de palavras, coordenação motora e interação. Cada gesto, palavra e olhar trocado contribui para o desenvolvimento da fala, linguagem, memória, coordenação motora, atenção e concentração. A música ajuda a reduzir a ansiedade, estresse e agitação de crianças com questões comportamentais. Além disso, a música era uma forma de resgatar um interesse do paciente com o mundo, uma vez que ele era integrante de uma banda, tocava guitarra, violão, sanfona, pandeiro, aprendeu de maneira autodidata e a música representava boa parte de sua vivência.
O uso da música na reabilitação do TEA é uma abordagem terapêutica que tem ganhado popularidade nos últimos anos. A música pode ter um impacto significativo melhorando habilidades sociais, emocionais, cognitivas e comunicação. A primeira ação foi uma reunião entre os profissionais e o sanfoneiro para apresentar a proposta e objetivos do grupo. O ambiente foi preparado para ser o mais previsível possível optando em utilizar um tapete de EVA da mesma cor da sala da fonoaudiologia. Algumas músicas eram tocadas rotineiramente, como a música de festa junina e as cantigas. No grupo eram apresentados instrumentos às crianças, como violão, chocalho, pulseira de guizos, pandeiro, ganzá, e o sanfoneiro sempre convidava as crianças para explorar a sanfona. Ele tocava músicas que conhecia, utilizávamos cantigas infantis para estimular a interação dirigida, a fala e rima, assim como a dança de roda e participação no ritmo. De forma lúdica, explorávamos a intensidade e frequência do som dos instrumentos, tentando combinar com a melodia e ritmo da sanfona (mais rápido, mais devagar, batida mais forte, mais fraca, silêncios.). No início, para criar um ambiente mais familiar e chamativo, eram também apresentados brinquedos, que, aos poucos, foram sendo retirados para não concorrer com a atividade musical. Além disso, aconteceram atendimentos psicológicos individuais com o sanfoneiro após cada encontro do grupo e também no encerramento.
Percebeu-se que houve interação social entre as crianças, que por vezes emprestavam brinquedos e instrumentos uns aos outros, sugeriam instrumentos entre eles, perguntavam pelo colega se ainda não tinha chegado. Esse tipo de troca e interação foram estimulados pois geralmente são dificuldades de crianças com TEA, e observou-se avanço das crianças nesse sentido. Foi observado bastante interesse do sanfoneiro em apresentar as teclas, sons e instrumentos, insistindo espontaneamente nos convites que, aos poucos, foram aceitos pelas crianças e cada vez mais explorados. As crianças até passaram, depois, a pedir para tocar o instrumento que ele estava tocando. Com o passar dos encontros grupais, as crianças apresentaram melhora nos atendimentos individuais fonoaudiológicos. O sanfoneiro no início falava pouco sobre seu filho falecido, com memórias desorganizadas no tempo e demonstrava certa resistência no assunto da morte. Ao longo do grupo, passou a espontaneamente falar mais dele nos atendimentos individuais, contar a história do falecimento com mais detalhes e localizar melhor os eventos no tempo. Ele contou que o filho foi diagnosticado com esquizofrenia, e percebeu semelhança no comportamento das crianças e de seu filho quando criança. O sanfoneiro apresentou melhora do humor, sua esposa mencionava que ele estava mais ativo, animado, voltou a tocar música em casa e passou a tocar no grupo de fisioterapia.
Os resultados se mostraram positivos pois os objetivos foram alcançados. Houve diminuição da agitação das crianças. Por meio do contato visual e atividades propostas, obteve vínculo com as terapeutas, o sanfoneiro e às crianças. Observou-se gradativo aumento de interação, imitação, troca de turnos/alteridade, repetição de palavras e movimentos, que são aspectos essenciais para o trabalho com crianças com TEA. No início mesmo com o cuidado com a constância do ambiente, houve dias em que algumas crianças não quiseram permanecer e foram embora. Foi trabalhado o compartilhamento já que às vezes uma criança queria todos os brinquedos e instrumentos para ela, e no decorrer houve certo sucesso. O grupo se encerrou por falta de demanda. Uma criança mudou de cidade, outra iniciou atendimento especializado em TEA no mesmo dia, e esse atendimento ocorre em outros municípios, uma vez que Suzanápolis não tem serviços especializados. O sanfoneiro lamentou o fim do projeto e continuou tocando na fisioterapia em grupo. Essa experiência nos ensinou que devemos dar valor as joias raras que estão escondidas no município, pois muitos idosos talentosos poderiam ajudar na reabilitação do ser humano.
Reabilitação, Música, Instrumentos e TEA.
ALINE DE MOURA CAPISTRANO, INAYA ANANIAS WEIJENBORG