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As Unidades de Acolhimento são espaços residenciais transitórios, que compõem os demais serviços da RAPS, com o objetivo de acolher as pessoas com sofrimento psíquico grave decorrente do uso de álcool e outras drogas lícitas e ilícitas. O usuário obrigatoriamente precisa estar inserido no CAPS Álcool e Outras Drogas e o morar/habitar ser o eixo norteador do seu Projeto Terapêutico singular, naquele momento. O cuidado na UA exige uma articulação de rede complexa, por se tratar de usuários em contextos de extrema precariedade, vulnerabilidades múltiplas e riscos psíquicos. A partir da inserção do usuário na UA, o PTS se organiza com foco na produção de autonomia, protagonismo, trabalho e renda, moradia, cuidados em saúde e garantia de direitos. Unidade de Acolhimento Adulto no município de Santo André-SP, seguindo as diretrizes estabelecidas para esse tipo de serviço e o modelo de atenção psicossocial, apresenta a experiência exitosa do caso da Sra. J. Essa experiência destaca a capacidade da UA servir como núcleo central que pode promover diferentes caminhos para reconstrução da vida dos usuários do CAPS AD. A população usuária de drogas lícitas e ilícitas enfrenta o desafio relacionado aos estigmas e preconceitos, sendo obstáculos para a criação de novas oportunidades. Nesse contexto, a UAA se apresenta como um ponto de assistência crucial na vida desses indivíduos, oferecendo suporte, promovendo novas trajetórias de superação e reinserção na sociedade.
Este trabalho tem o objetivo de apresentar a experiência exitosa da Sra. J, desenvolvida pela UAA em parceria com o CAPS AD. Busca demostrar as estratégias biopsicossociais e articulações com diferentes serviços e instituições no processo terapêutico da moradora que apresentava fragilidades complexas em diversos campos da vida.
Utilizaremos o método de Estudo de Caso através da exploração do histórico de registros de prontuários e das observações e experiências partilhadas com a moradora durante o exercício do seu Projeto Terapêutico Singular (PTS) no CAPS AD e na UAA. O PTS foi construído junto ao usuário e de acordo com sua história, suas demandas e recursos psíquicos disponíveis naquele momento. Esse cuidado foi desenvolvido por meio da RAPS de Santo André, através da colaboração entre o CAPS AD e diversos atores: Consultório na Rua, Centro POP, Unidades Básicas de Saúde (UBS), Unidades de Pronto Atendimento (UPA), Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e a Frente de Trabalho. O caso tratou-se de uma mulher de 48 anos, semianalfabeta, sem profissão. Aos 15 anos, após desentendimentos familiares e sucessivos abusos sexuais, por parte do companheiro da prima, decidiram sair da casa. Sem o apoio de familiares, foi para rua, onde conheceu pessoas ligadas ao crime e ao tráfico, dando início ao uso álcool e cocaína, agravando as vulnerabilidades sociais e psíquicas, resultando em infrações da lei e prisões. Teve duas uniões afetivas e cinco filhos. Aos 26 anos, deixou a família no interior de São Paulo e veio para Santo André, agravando o uso de álcool e drogas, iniciando a trajetória de quatro prisões, totalizando histórico de 18 anos de vida em situação de rua, cinco internações em Comunidade Terapêutica, nove internações no CAPS AD e cinco períodos de permanência na UAA.
A trajetória de cuidado marcada pela intensificação de cuidado e de intervenções através da flexibilidade, tolerância, negociações, rompimentos, recomeços e reconstruções, propiciou a construção de vínculos e alianças terapêuticas. Isso demonstra a complexidade dos investimentos necessários para sensibilizar a usuária quanto seus agravos em saúde e suas vulnerabilidades e riscos sociais, sendo possível a partir das abordagens do Consultório na Rua, e das ações integradas a Secretaria de Assistência, através do Centro POP, da Abordagem de Rua e do Acolhimento Emergencial, além do envolvimento de diversos atores sociais. Esses esforços resultaram em uma trajetória de superação significativa, com conquistas transformadoras, como o retorno aos estudos, o ingresso no mercado de trabalho e a conquista de uma residência própria. A UAA, como ponto central da rede de assistência, proporcionou ambiente seguro e protegido, através das mediações interpessoais, estabelecimentos de rotinas e metas, acompanhamento e fortalecimento do PTS em conjunto com o CPAS AD, facilitando o acesso a rede de saúde, assistência social, projeto de trabalho e garantia de direitos.
O cuidado desenvolvido na RAPS tece teias e estabelece conexões com o objetivo de promover reabilitação que integra as necessidades do sujeito, sem a dicotomia entre o que é clínico e o que é social. A clínica psicossocial exige formas criativas, flexíveis e singulares para intervir em casos complexos, com situações desfavoráveis. Através de exercícios concretos de cidadania ativa, entendendo que o sujeito deve ser o principal protagonista de sua história, é imprescindível seguir investindo no fortalecimento de dispositivos e ações que fortaleçam as pessoas com sofrimento psíquico, na reabilitação psicossocial com foco no indivíduo e práticas territoriais e comunitária. A UAA embora ainda seja um serviço de saúde escasso na RAPS do país, destaca-se como um recurso essencial na promoção da clínica psicossocial e na reabilitação de indivíduos com problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas. Muitas vezes, essas pessoas enfrentam uma trajetória de vida que resulta na perda de autonomia, protagonismo, laços sociais e no comprometimento da convivência comunitária. A moradia, o habitar produz novas contratualidades, ampliando as relações de vida e rede de apoio desses sujeitos.
Saúde Mental, Unidade de Acolhimento, Reabilitação
Emílio Laudelino Inocente dos Santos, Ederson Bordini de Souza, Cícero Mendes Ferreira, Lucilene Alves dos Santos