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Nos últimos anos, observa-se um interesse crescente pelo canabidiol (CBD), substância presente na planta do gênero Cannabis, cujos potenciais efeitos terapêuticos vêm sendo descritos para diversas condições de saúde. Destaca-se, especialmente, seu uso em situações graves e incapacitantes, frequentemente refratárias aos tratamentos convencionais disponíveis. Em agosto de 2025, a Prefeitura de São Paulo passou a disponibilizar medicamentos à base de canabidiol — nas formulações de extrato completo (full spectrum) e extrato livre de tetrahidrocanabinol (THC) — para o tratamento de 31 condições de saúde. A farmácia do Complexo Milton Aldred (Centro Especializado de Reabilitação – CER, Acompanhante da Pessoa com Deficiência – APD e Centro de Especialidades Odontológicas – CEO) foi definida como uma das unidades municipais responsáveis pela dispensação.
Oferecer tratamento seguro e potencialmente eficaz para pessoas com condições graves de saúde, bem como avaliar os resultados obtidos, visando subsidiar o uso racional do canabidiol nas diferentes condições clínicas atendidas.
Entre agosto de 2025 e janeiro de 2026 foram dispensados 458 frascos de canabidiol, em 294 prescrições pela farmácia, sendo os diagnósticos mais frequentes foram dor crônica (123 prescrições e transtorno do espectro autista (88 prescrições), porta aberta, para pessoas de todas as regiões, e não apenas do território de abrangência da Unidade de Saúde. Pessoas com transtorno do espectro autista Foram selecionados 15 pacientes pelas equipes de reabilitação intelectual, cujos casos foram discutidos previamente em reunião multiprofissional antes do agendamento médico. Foi dada prioridade a jovens com TEA e importantes limitações funcionais associadas à comunicação e agressividade, condição frequentemente exacerbada durante a transição para a adolescência.Trata-se de uma situação complexa, que atravessa o processo de envelhecimento tanto das pessoas com deficiência quanto de seus cuidadores, com aumento progressivo da necessidade de apoio e redução das alternativas terapêuticas disponíveis. Após avaliação médica inicial, realizou-se a prescrição e a dispensação do medicamento. Na maioria dos casos, optou-se inicialmente pela formulação broad spectrum, isenta de THC. O seguimento foi realizado por meio de consultas médicas periódicas e relatos das equipe multidisciplinar.Foram selecionados aproximadamente 30 pacientes com dor crônica, em uso contínuo de opioides com resposta insatisfatória.
Os resultados foram considerados bom ou ótimo para a maioria dos casos, com diversos casos de mudanças positivas significativas para a qualidade de vida.Apenas dois pacientes suspenderam o tratamento, um por falta de resposta / adesão e um por sonolência. A maioria das pessoas envolvidas já conhecia o efeito terapêutico do canabidiol (pacientes, familiares e terapeutas), e foram surpreendidas de forma positiva pela experiência. Alguns relatos foram selecionados: “Não preciso mais trancar o quarto nem esconder meus outros filhos, quando meu filho fica contrariado” – mãe de paciente com TEA grave, que sofria agressões quase diárias de seu filho adolescente. “Nem acreditei quando aquele jovem apático, indiferente aos nossos esforços de contato, participou ativamente das atividades do grupo e até sorriu!” – terapeuta ocupacional do CER. “Após duas semanas de tratamento, parecia outra pessoa, afetuosa, participativa, nunca imaginei que ele tivesse tanto potencial “– apoiadora do programa APD (Acompanhante da Pessoa com Deficiência). “Após um mês de tratamento comecei a diminuir os outros remédios e consegui parar tudo – 180 mg de codeína e 900 mg de gabapentina. Este remédio não dá os efeitos colaterais dos outros, e estou até conseguindo trabalhar”- paciente de 55 anos, com diagnóstico de dor por radiculopatia lombar e gonartrose.
A prescrição e dispensação de canabidiol pelo SUS na Prefeitura de São Paulo trouxe um impacto positivo na saúde das pessoas com deficiência atendidas por esta iniciativa. Além disso, trouxe também esperança para as pessoas, famílias e equipes de saúde que lidam com condições graves, incuráveis, com grande sofrimento físico e mental, a despeito do cuidado adequado. É fato que, para várias indicações terapêuticas, não há evidências científicas publicadas suficientes para implementar este tratamento em larga escala no SUS. Porém, é imprescindível considerar que tais evidências exigem muito investimento financeiro, despertando pouco interesse da indústria farmacêutica por se tratar de produto não patenteável, presente na Natureza. Por outro lado, este projeto – piloto, através de experiência da vida real, demonstrou o potencial desta ferramenta terapêutica na melhora da qualidade de vida das pessoas com deficiência.
Canabidiol, dor, transtorno do espectro autista
LIA LIKIER STEINBERG, ARIANE ANDRE ALVES, ANDREIA MARQUES FERREIRA, KARINE CASTÃO