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A partir de abril de 2001 com a aprovação Lei № 10.216, que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas com transtornos mentais e redireciona a assistência em saúde mental, privilegiando o oferecimento de tratamento em serviços de base comunitária, foram criados os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Os CAPS são equipamentos de saúde mental que buscam modificar o sistema de tratamento psiquiátrico no Brasil, combatendo a exclusão social, auxiliando na integração familiar e social de seus usuários e sendo facilitador no processo de autonomia. O processo de reforma da assistência psiquiátrica fortalece a substituição da concepção de doença pela de existência de sofrimento, na valorização do cuidar e adoção do território como espaço social de exercício de cidadania. As oficinas nos CAPS surgem como elemento terapêutico e promotoras de reinserção social, através de ações que envolvem o trabalho, a criação de um produto, a geração de renda e a autonomia do sujeito. Devido ao potencial reabilitador, foi criada a Oficina de Fuxico no CAPS Adulto Alvorecer do município de Santana de Parnaíba em fevereiro de 2022 a pedido dos usuários em fazer atividades manuais. A atividade de costura é um espaço de criação, expressão, produção, transformação, humanização, experimentação, socialização e convivência, operando-se mudanças subjetivas na representação social da pessoa.
Este trabalho tem por objetivo relatar a experiência da Oficina de Fuxico no CAPS Adulto Alvorecer do município de Santana de Parnaíba. A Oficina de Fuxico é uma atividade que busca reabilitação psicossocial dos usuários do CAPS utilizando a costura, em especial o fuxico, como recurso terapêutico. O fuxico traz consigo raízes históricas, visto que, esta técnica foi trazida ao Brasil pelos escravos. Enquanto as mulheres se reuniam para criar peças coloridas com os mais diferentes tecidos, aproveitavam para se expressar e conversar sobre tudo que tinham desejo e interesse, assim sendo, o fuxico tornou-se um facilitador de diálogo, favorecendo as diversas formas de expressão e a socialização.
É um grupo semanal aberto, realizado na sala de atividades do CAPS Adulto Alvorecer, do qual a indicação para a participação na oficina ocorre na construção do Projeto Terapêutico Singular (PTS), a partir da identificação com a proposta da atividade. A oficina é conduzida por uma farmacêutica e um terapeuta ocupacional. Os participantes são convidados a produzir os “fuxicos”. O fuxico é uma técnica artesanal que consiste em criar pequenos enfeites utilizando retalhos de tecido que são dobrados e costurados à mão, transformando-os em peças únicas e criativas. A produção do fuxico inicia a partir da escolha dos materiais para sua produção, da qual o usuário se depara em meio a um montante de retalhos, com diversas formas, cores e texturas. A partir dos fuxicos são produzidos bonecos, adornos para cabelo, porta copos, colchas, almofadas, cortinas, bolsas, colares, etc. Para a ambientação da atividade foi utilizada a música clássica, proporcionando maior relaxamento e contribuindo no processo de produção. Os participantes da oficina tem autonomia para decidir o destino das suas produções, do qual podem ser levadas para suas residências ou deixadas na unidade de saúde, assim podem ser expostas em ações do município, sem a intenção de venda.
O contato do usuário em cada etapa da atividade, iniciando na busca dos seus retalhos, contempla suas lembranças, memórias de um passado com quebra de vínculos e perdas. Cada estampa proporciona com seu colorido uma oportunidade de se recriar e de se reinventar na produção do fuxico, a peça que correspondeu a uma partícula de uma grande composição, assim como ocorre no processo de reabilitação psicossocial. A produção do fuxico é uma técnica simples, que facilita o acesso e a aprendizagem do usuário a uma atividade manual, que pôde ser utilizada para uma infinidade de peças artesanais e torna-se uma forma de expressão através das cores e formatos obtidos. O fuxico por ser uma técnica de reaproveitamento de retalhos de tecidos que iriam para descarte, trabalhada também com os usuários, questões relacionadas ao papel de cidadão, através da preservação do meio ambiente e reciclagem de materiais. A atividade estimula a coordenação motora, memória, atenção, concentração, criatividade e improvisação dos usuários, contribuindo para redução de sintomas como estresse, tristeza, sentimento de menos valia, angústia e proporcionando momentos agradáveis. As produções foram realizadas sem preocupações exclusivas com a estética, mas valorizando o potencial criativo, expressivo, imaginativo e incentivando a originalidade, possibilitando novas produções de subjetividade, fator indispensável no processo de reabilitação psicossocial.
A Oficina de Fuxico, por ser uma atividade expressiva, mostrou-se como um potente recurso no processo de reabilitação psicossocial dos usuários do CAPS tanto como elemento terapêutico, quanto como promotora de reinserção social. O processo de construir concretamente algo permitiu aos participantes falar de si por meio da produção, verbalizando de suas vivências e singularidades, possibilitando a construção de vínculos, favorecendo a escuta e inclusão dos usuários. As produções passaram a ser vistas pelos usuários como forma de comunicação, instrumento de valorização da expressão e ampliação de possibilidades pela arte. O sujeito pode compartilhar suas histórias, experiências e sentimentos, que puderam ser expressos, escutados e acolhidos, utilizando a atividade como intermediária na construção de vínculos. O sujeito em sofrimento psíquico, que antes tinha uma posição inativa e de exclusão, agora viu a possibilidade de se inserir num nível de participação, de trocas e de reconstrução constante de suas relações com o mundo e seu cotidiano.
CAPS, oficina, costura, fuxico
Rafael Occhi da Silva, Claudia Paola Saavedra Schuster, Natália de Cássia Alves, Lucia Maria Pissolatti da Silva Navarro, Camila Aparecida Damasceno Lopes, Janaina Cruz Marini, Jeferson Giovan Volkweis, Maria Silvia de Almeida Mello Freire, José Carlos Misorelli