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A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) de Jundiaí vem passando, desde 2016, por um processo de qualificação, a partir das premissas da Política Nacional de Saúde Mental e do modelo de atenção psicossocial. Fazem parte deste processo: a ampliação da rede, através da implantação de novos serviços de base territorial; o fortalecimento das ações de cuidado à crise no território; o investimento nos processos de desinstitucionalização; a articulação de redes estratégicas para o cuidado, na perspectiva da intersetorialidade; e a priorização às ações de geração de trabalho e renda enquanto eixo estratégico da reabilitação psicossocial. Neste contexto, a gestão do trabalho na RAPS vem sendo objeto de constante reflexão, na intenção de construir modos de fazer trabalho em saúde mais horizontais, que tenham, de fato, usuários a trabalhadores como protagonistas na organização da rede e na proposição das práticas de cuidado. Assim, desde 2017, a RAPS de Jundiaí realiza um processo de planejamento estratégico ascendente, que tem início dentro de cada um dos serviços componentes e se conclui com uma Oficina de Planejamento Anual, contando com a participação de todos os trabalhadores e gestores da rede. Neste período, o processo de planejamento na RAPS tem se estruturado a partir de 4 eixos estratégicos: Articulação de Redes Intra e Intersetoriais; Gestão da Clínica e Processos de Trabalho; Formação para o trabalho na RAPS e Fortalecimento do protagonismo de usuários e trabalhadores.
– Instituir espaços de construção coletiva e tomadas de decisão compartilhada, como estratégia de horizontalização da gestão do trabalho na RAPS; – Garantir que o processo de planejamento na RAPS contemple as percepções, avaliações e proposições de todos os envolvidos no processo de gestão – usuários, trabalhadores e gestores; – Criar espaços para discussão de temas sensíveis, comuns aos serviços, na busca de estratégias possíveis de superação frente aos impasses identificados. – Reduzir tensionamentos e fortalecer a articulação entre os diferentes serviços da RAPS
Em março de 2024, durante o processo de Planejamento da RAPS, identificou-se a necessidade de uma abordagem coletiva de alguns impasses, percebidos como comuns aos serviços. Propôs-se a abordagem a estas questões, a partir de 4 Comissões compostas por representantes de trabalhadores e gestores. Foram identificados como impasses, (1) a vivência de situações de violência nos serviços e seus impactos na saúde emocional dos trabalhadores; (2) a necessidade de construção de ofertas mais efetivas para a população jovem na RAPS, especialmente no processo de transição entre os serviços voltados para crianças e adolescentes (CAPS IJ e Unidade de Acolhimento Infanto juvenil – UAI) e os serviços de adultos (CAPS AD III, CAPS II, CAPS III e Unidade de Acolhimento Adulto – UAA); (3) a dificuldade de articulação para o cuidado em rede, em casos que apresentavam demandas complementares, especialmente relacionadas ao uso de álcool e outras drogas, associado a um transtorno mental; e (4) a necessidade de construir estratégias de valorização e visibilização do trabalho produzido pela rede, através do incentivo ao registro e publicação A partir da identificação dessas demandas, foram compostas as comissões, considerando o interesse dos trabalhadores em cada temática. As reuniões de cada comissão ocorreram mensalmente, até o final de 2024, e o trabalho dos grupos tem resultado em produções singulares que vêm se constituindo como respostas bastante efetivas aos impasses identificados inicialmente
Foram compostas 4 Comissões: “Prevenção e Manejo de situações de Violência”, “Juventudes”, “Articulações Complexas” e “Experiências Exitosas” A Comissão de Prevenção e Manejo de situações de Violência fez um levantamento inicial (questionário), para compreender como os trabalhadores de cada serviço percebiam as situações de violência vivenciadas, bem como as estratégias existentes para prevenção e manejo. Após, iniciou-se a produção coletiva de um documento técnico orientativo comum para todos os serviços da RAPS, com fluxos e responsabilidades bem definidas, e ênfase no fortalecimento das estratégias de acolhimento A Comissão de Juventudes realizou um levantamento das ofertas para a população jovem, bem como as principais dificuldades nos processos de transição entre os serviços. Neste contexto, avaliou-se a necessidade de escutar os jovens que frequentam os serviços, sobre como se dão os processos e como poderiam ser aprimorados. Foram realizadas oficinas e uma carta aos gestores, elaborada pelos adolescentes, com suas recomendações A Comissão de Experiências Exitosas construiu um repositório com todas as produções elaboradas pelos serviços da RAPS nos últimos 4 anos e, em dezembro de 2024, publicou a primeira Revista Digital da RAPS Por fim, a Comissão de Articulações Complexas vem realizando discussões de casos que se situam na interface do cuidado entre diferentes serviços, tendo impacto positivo na redução dos tensionamentos e no fortalecimento do cuidado compartilhado
A constituição de comissões temáticas transversais para a abordagem de impasses comuns aos serviços da RAPS de Jundiaí, tem se apresentado como uma estratégia bastante efetiva, ao promover a articulação de saberes, a horizontalidade e o protagonismo de trabalhadores, gestores e usuários, no enfrentamento de questões de grande complexidade. Percebe-se que o próprio engajamento no processo, bem como a percepção de que todos são protagonistas na construção de estratégias de aproximação, tem contribuído para a redução dos tensionamentos, o fortalecimento da articulação entre as equipes e da construção de sentido no trabalho. Apresenta-se como principal desafio, a sustentação deste processo, em meio a uma rotina de trabalho atravessada por uma grande quantidade de demandas. Avalia-se que o trabalho das comissões possa ter caráter temporário, resultando em produtos que garantam a continuidade dos processos iniciados e que, então, os coletivos possam se debruçar sobre outras temáticas que, no decorrer do tempo, passem a se apresentar como prioritárias.
Gestão em Saúde, Planejamento, Horizontalidade
ADRIANA CARVALHO PINTO, ALEXANDRE MORENO SANDRI