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A Unidade de Acolhimento Adulto (UAA) é um serviço residencial de caráter transitório, integrante da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), que acolhe pessoas com problemáticas decorrentes do uso de álcool e outras drogas, que estão em situação de vulnerabilidade social e/ou familiar. As UAAs seguem os pressupostos da reforma psiquiátrica, ou seja, o cuidado é realizado em liberdade, no território. A reforma psiquiátrica brasileira tem buscado alternativas aos manicômios e instituições de caráter asilar, as Unidades de Acolhimento Adulto (UAA) se colocam como uma das alternativas (MACHADO, 2020). O processo de cuidado em saúde é conduzido pelo viés da redução de danos. Sendo assim, a UAA representa um espaço onde é possível ressignificar e construir novas possibilidades de habitar, indo além das dinâmicas de uma casa, abrangendo também, o território e as formas como os usuários se inserem e se relacionam com os espaços. Um dos pontos centrais do cuidado oferecido pela UAA é o estímulo e promoção da autonomia dos usuários. Cada estadia na UAA é única, considerando que cada Projeto Terapêutico Singular (PTS) é individual e cada usuário é singular. Este trabalho visa apresentar uma das diversas estadias possíveis dentro de uma UAA, demonstrando o quão crucial é um olhar individualizado, cuidadoso e mais próximo para a retomada da autonomia das pessoas ali residentes.
Apresentar a UAA como um equipamento potente no incentivo e promoção da autonomia dos usuários. Trabalhar o conceito de habitar em seus mais variados eixos, como a rotina de uma casa, relações com os demais usuários e equipe e vivências no território; Demonstrar o quanto o vínculo e o diálogo são ferramentas cruciais para o trabalho na clínica AD.
O caso: O usuário, fazia uso de álcool e crack de maneira abusiva, apresentava humor deprimido, não possuía nenhuma fonte de renda e havia interrompido seu acompanhamento para o HIV/AIDS no SAE do território. Desde o início de seu acompanhamento, as equipes investiram na vinculação com o usuário. Através do vínculo, foi possível sensibilizá-lo sobre a importância da retomada de seus cuidados clínicos, especialmente a medicação antirretroviral visando o cuidado em relação ao vírus HIV. Em março de 2023, foi inserido no programa POT Redenção, ação crucial para estimular a autonomia do usuário. Em abril de 2023, o usuário foi contemplado pelo programa Bolsa Família. Entretanto, o usuário intensificou o uso de substâncias psicoativas devido à interação com alguns novos usuários da UAA, mas através do vínculo estabelecido com ele, foi possível abordar essa situação de forma assertiva. Ação essencial para que o usuário retomasse seu cuidado. Utilizando o vínculo como uma ferramenta potente de cuidado, foi possível estimular a autonomia do usuário em diversas ações, como saídas terapêuticas para cinemas, shopping e parques, visando ressignificar a forma como o usuário se relacionava com os espaços e a ampliação de seu poder contratual. Ao longo de sua estadia foi possível construir a autogestão de sua medicação que no inicio do cuidado era assistida. Já no último mês de sua estadia, foi possível construir sua saída para um local de moradia autônoma.
Ao longo de sua estadia, foi possível construir com o usuário novas formas de habitar a residência e o território. Atualmente, o usuário se apresenta nos espaços de forma mais positiva, circulando em diversos ambientes para além das cenas de uso. Sua relação com o uso de substâncias foi transformada, e o objetivo profissional agora é atuar como redutor de danos. Ao final de sua estadia na UAA, o usuário alugou um espaço de moradia autônoma, conquistou emprego e renda. O vínculo com a UAA, ferramenta tão importante nesse processo, permanece forte, e recentemente recebemos visitas do mesmo.
Acreditamos que cuidar das pessoas (não só das drogas), investindo nas relações, é o caminho para cuidado efetivo em álcool e outras drogas. As atividades propostas, circulação e pertencimento aos espaços da cidade como cinemas, parques, centro da cidade, trabalho, bem como, as relações com lugares já conhecidos, como mercados possibilitaram reflexões sobre como compreender a atividade ali exercida se relaciona com sua atual dinâmica de vida, indo para além da compra de álcool, por exemplo, conseguindo realizar compras para a unidade e posteriormente, para sua casa, visando as possibilidades de relações para além das envoltas no uso de substâncias psicoativas. O vinculo estabelecido com o usuário exerceu suma importância no processo de cuidado e reabilitação psicossocial proposto; sem isto não seria possível compreender as relações do usuário no território, com familiares, com seu uso de substâncias psicoativas e como isto ocupava algum espaço em suas relações; as mediações foram realizadas à partir deste primeiro passo, garantindo o acesso do mesmo a todos os espaços aqui mencionados e a um outro olhar para as possibilidades de vida.
SAUDE, MENTAL
José Eduardo Pereira da Silva, Isabela Melo da Silva, Fabricio Faustino de Lima, Adriano Ferreira dos Santos, Sueli da Silveira Lima, Kelly Cristina Alexandrino de Oliveira Santos, Fábio Luís de Souza Vichino