Em defesa do SUS




A diferença que o tempo faz em “tempos” de epidemia na gestão do SUS

A diferença que o tempo faz em “tempos” de epidemia na gestão do SUS

Por: Ana Valéria M. Mendonça, Cláudia Meirelles e Luiz Felipe Barcelos

A Saúde está, desde sempre, alinhada ao senso de urgência e resposta oportuna, e hoje nos vemos diante de um ser invisível, que exige uma reinvenção das nossas práticas diárias frente a uma pandemia sem precedentes. Os dias transcorrem entre as estratégias e documentos que podem apoiar a gestão municipal da saúde durante a crise e também fora dela, mas no atual contexto, surge fortemente um terceiro elemento que são as notícias alarmistas que roubam o tempo. Deparamo-nos diante de sofrimentos, dores, mortes, casos incertos e janelas que se abrem e fecham, trazendo furacões de falsas noticias, tumultuando os caminhos que pareciam certos. E como ficamos diante desse tempo revolto, como administrá-lo?

Temporada de Fake News aberta com números recordes para uma boa reflexão é apontada por estudos diários. Para se ter uma ideia, somente no período de 13 a 19 de abril, um sistema de monitoramento de grupos de WhatsApp abertos, havia identificado quase 11 mil usuários de internet, em mais de 900 grupos, disseminando 140 mil notícias falsas, somente sobre a Covid-19 em todo o Brasil. Estes são apenas alguns dos artifícios daqueles que usam a internet para difundir inverdades, propagar falsas ciências, confundir a consciência sanitária da população e, por consequência, interferindo no senso crítico de todos e impondo novos dilemas, entre eles, estão: o que e em quem devemos acreditar?

Outro grande dilema diz respeito à velocidade desenfreada da necessidade de respostas à mídia comercial e a disseminação de notícias confiáveis, absolutamente incompatíveis com a pressão midiática no desejo de garantir seus furos de reportagem ou o fechamento de suas edições em detrimento do tempo que se é necessário para com a verdade de uma ciência cidadã essencial à prevenção e controle da COVID-19.

Na capilaridade da Saúde, onde se ganha ou perde a batalha da vida, a urgência nas respostas é outra: intervenções oportunas sobre doentes, organização da estrutura e insumos, atenção ao comportamento das pessoas, foco nas condições de trabalho e conexão com informações oficiais. O gestor da saúde, na vida real, se vê todos os dias dividido entre essas (e muitas outras) responsabilidades e as respostas oportunas para uma sociedade aflita, atônita, sem referências e imersa em uma segunda epidemia: a infodemia.

A mistura da comunicação com as redes sociais, se não for bem estruturada, leva a uma comunicação sem rumo, que destrói os limites entre a verdade e a mentira e que permite interação de achismos, desavenças e muita emoção. Isto sem esquecer do volume de informações produzidas descontroladamente e que provocam as sensações de medo, estresse e insegurança na sociedade.

A tradicional e já conhecida comunicação cuidadosa, documentada e investigada em fontes confiáveis perde espaço para uma nova comunicação interpessoal e colaborativa, lógico que necessária para dar clareza, transparência, agilidade e credibilidade – temperos essenciais para uma boa gestão (da saúde e da comunicação), mas a que ponto devemos confiar nas “boas intenções” dos sem número de “eus” que, de posse de seus celulares, resolveram ser jornalistas da vida cotidiana e saírem por ai disseminando as imagens truncadas com seus comentários recheados de falsos verbos?
No âmbito da gestão do Sistema Único de Saúde nos municípios, como apoiar um gestor, desde uma Unidade Básica de Saúde, ou de qualquer outro ponto do sistema, aos demais territórios sanitários de uma cidade em sua diversidade e completude, para que ele não seja presa fácil das avalanches de Fake News, divergências ideológicas ou de matizes político partidárias muitas vezes incentivadas pela mídia, agravando ainda mais a crise?

Vejamos, a primeira sugestão é “vestir-se” com a comunicação do mesmo modo que se veste com as roupas das outras áreas da gestão de saúde, não esquecendo de alguns pré-requisitos essenciais: agilidade, abordagens coerentes, foco em prioridades, transparência, uso adequado de meios de comunicação, busca de informações em fontes seguras, processos racionais de respostas, credibilidade, eficiência e construção da qualidade na equipe de comunicação a partir de investimentos permanentes.

Adicionadas a estas, há questões essenciais que também devem ser consideradas para que os gestores do SUS não desperdicem seu tempo respondendo a pautas externas. É chegada a hora da inverter as posições e assumir o protagonismo da Saúde a fim de inibir as falsas notícias bem como as pressões da mídia no atendimento das informações da hora. A sociedade precisa que a gestão do SUS seja o sujeito da notícia, e não um mero informante junto à sociedade.

Mas, nos tempos de hoje, as mídias sociais, os releases, os boletins epidemiológicos, as coletivas de imprensa, as notas técnicas são insuficientes, exigindo de todos a reinvenção e a saída imediata da rota do mesmo fazer. Precisamos também:
• Construir redes de comunicação com afinidades claramente identificadas, que compartilhem saberes e que estejam dispostas a construir estratégias aos cenários de gestão de crise.
• Evitar o compartilhamento de uma informação sem checar dados oficiais (sim, eles existem suficientemente para apoiar quem comunica): uma notícia falsa disseminada gera pânico e corrói a gestão do tempo em suas entranhas.
• Organizar os meios de comunicação e sua equipe com responsabilidades e compromissos claros e éticos – principalmente aliados aos objetivos estratégicos da instituição e/ou do gestor.
• Antecipar os números que produzam agendas positivas. Mesmo com os relatos diários, reais e trágicos da pandemia, deve-se valorizar as ações positivas, pois elas também existem e precisam ser apresentadas à sociedade.
• Buscar depoimentos que traduzam credibilidade e que estimulem a identificação com a população. Lembre-se sempre de identificá-los corretamente e dar um objetivo claro ao depoimento para que este não se transforme em testemunhos mascarados de segundas intenções.
• Promover o engajamento social como uma estratégia de prevenção e controle à pandemia. Enquanto todos não estiverem a salvo, ninguém estará o estará. Para isso, deve-se utilizar de linguagem simples e clara, no melhor estilo da tradução do conhecimento.
• Ler, ler muito. Querer comunicar sem informações suficientes dá margem para um trabalho raso e sem consequências.
• E, principalmente, manter informações ao alcance do Gestor em tempo real sobre o conhecimento do fenômeno da pandemia e suas implicações os processos de governança em processo de cogestão com os entes federativos, intermunicipais, as equipes de saúde e os usuários do SUS.
Em tempos de epidemia é importante tomarmos a pulso os ponteiros do relógio para que eles sigam no compasso do seu tempo, girando em torno da boa comunicação, confiável, ética, que defenda, incondicionalmente, a vida plena e o Sistema Único de Saúde, tão desejado por outros países do mundo em tempos de Coronavírus.

– Cláudia MeirellesMédica, sanitarista, assessora de comunicação do Conselho de Secretários Municipais de Saúde do estado de SP (COSEMS/SP)
– Ana Valéria M. Mendonça, Professora associada da Universidade de Brasília. Coordena o Laboratório de Educação, Informação e Comunicação em Saúde – LabECoS/UnB. valeriamendonca@gmail.com
– Luiz Felipe BarcelosJornalista, coordenador de comunicação do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde.
– Proctor, RN.; Schiebinger, L. (Ed.). Agnotology: the making and unmaking of ignorance. Palo Alto: Stanford University Press, 2008.

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